Na pandemia, é preciso assistir aos despossuídos no Brasil e não a quem já tem privilégios

PRIVILÉGIOS, DESPOSSUÍDOS E OS DIAS DE QUARENTENA

No Brasil, tem uma boa moradia e rendimentos é um privilégio. O país, como sabemos, tem uma multidão de despossuídos, aqueles que lutam no dia a dia para sobreviver, ganhando hoje o que irão gastar hoje mesmo e o fazem sem saber como será o amanhã. Com a pandemia do coronavírus e a Covid19, a situação se agravou e um dos indicadores é o cálculo do Governo Federal de a renda básica emergencial aprovada pelo Congresso Nacional chegar, no final, a 80 milhões de pessoas.

Ao completar 60 dias de isolamento social – algo impensável há pouco tempo – tenho refletido sobre essa situação e a desigualdade existente no Brasil. Nós, os privilegiados, podemos ficar no isolamento social. Mas quem está na base do que se chama pirâmide social, não pode fazer isso. Ele depende do que produz no dia a dia, no mais das vezes na informalidade. Não tem nenhuma garantia de recebimento e precisa se virar.

CAMPEÕES

Um reflexo são as filas nas agências da Caixa Econômica que o noticiário reproduz todos os dias. Outro, são os ônibus lotados de gente que, de uma ou de outra forma, precisa trabalhar. E são eles, na verdade, que mais se expõem à infecção do coronavírus, fazendo com que os números do Brasil saltem e nos coloque na incômoda posição de campeões em infecção e morte.

Os mais necessitados, como tem frisado vários economistas, muito deles conservadores, precisam de ação rápida do Governo. E nesse sentido é que veio a renda básica emergencial. Só que, mais de um mês depois de ter sido aprovada, ainda existem milhões de brasileiros que não a receberam. Como ficar confinado se não tem o mínimo indispensável para sobreviverem?

CONSTRASTE

Há um nítido contraste entre as ações de Governos Estaduais e Prefeituras em relação ao Governo Federal. Nos primeiros – em sua maioria, pelo menos – a ciência tem prevalecido e tem sido tomadas medidas recomendadas pela Organização Mundial de Saúde (OMS), sendo a principal delas o isolamento físico, significando ficar em casa. Ficar em casa, aliás, é a única maneira de deter a propagação do vírus e controlar o número de mortes, não que haja um número aceitável, pois não há.

Aparentemente a se tomar pelas declarações dadas e a inação existente, o presidente e o seu governo querem ver mais e mais infectados, o que irá significar mais e mais mortes. Vamos abrir tudo, diz. Se não o fizermos, a economia vai para o buraco, reafirma. Olhando o outro lado, de quem entende de economia, a recessão é inevitável e quando maior for o número de infectados e mortos, pior ela será.

CONSUMO

Como já disse aqui, vivemos em uma sociedade de consumo e é o consumo que impulsiona a economia. A pandemia mudou tudo. Antes de mais nada as pessoas, estejam elas em qualquer nível, sejam privilegiadas ou despossuídas, querem salvar suas vidas, verem seus familiares vivos, evitar a ida para hospitais onde os recursos estão, a cada dia, ficando mais escassos.

É natural que isso ocorra. Nós, os privilegiados, já o estamos fazendo. No meu caso e de minha família, há 60 dias. E vamos ficar quanto tempo for necessário. Mas precisamos, eu e todos nós, refletir sobre a situação e entender que, sem a ação de governos – isso mesmo, no plural – a imensa rede de pobreza existente no Brasil vai aumentar.

Mas se podemos nos colocar no topo ou na parte intermediária da pirâmide social, como saber quem está na base? O IBGE tem números e eles não são nem bonitos, nem bons. No Brasil, existem mais de 13,5 milhões de pessoas cuja renda per capita é de R$ 145,00 (cento e quarenta e cinco reais por mês). E outros 52,5 milhões ganham até meio salário mínimo.

COMO FICAMOS

São esses 64 milhões de pessoas que dependem da renda básica emergencial e parte dela ainda não foi beneficiada. Como você se sentiria se estivesse na pele de um deles? Eu não consigo me imaginar, mas sei que boa parte dessa gente será alvo da Covid19. E se a infecção aumentar, é ela quem mais vai morrer. E não é inevitável que isso ocorra. Do alto do nosso privilégio temos de entender que essas pessoas – sim, são gente como eu e você – precisam de proteção.

E cabe ao poder público – União, Estados e municípios – providenciarem essa proteção, seja mediante auxílio financeiro, seja assistindo-as na rede pública e oferecendo condições para que consigam ganhar o seu sustento, expondo-se ao mínimo. O mais importante é preservar vidas, pois elas são únicas e irrecuperáveis.

Se falharmos nisso, não somos dignos de manter os privilégios que hoje temos.

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