O Grande Irmão e o capitalismo de vigilância

A VIGILÂNCIA DIGITAL COMO ROTINA

Hoje, a realidade supera a ficção e o Grande Irmão, do romance 1984, de Orson Wells, foi superado pelo capitalismo de vigilância, que lucra com os dados de quem via, em todos os momentos da vida, através dos aplicativos e da internet.

George Orwell, ao publicar 1984, mostrou um futuro que, hoje, está configurado: a vigilância permanente. No onipresente Grande Irmão, a vigilância é constante, do controle da informação à manipulação da verdade. Olhando para o hoje, podemos ver que o mundo descrito no romance não foi reproduzido de forma literal, mas muitos de seus mecanismos encontram ecos na realidade em que vivemos.

Essa realidade torna-se mais evidente diante da análise feita por Shoshana Zuboff em seu livro A Era do Capitalismo de Vigilância. Nele, ela cria um conceito e o aplica ao que acontece, de certa forma, consolidando a ideia defendida por Yannis Varoufakis em Tecnofeudalismo, em que mostra a influência que as chamadas bigtechs hoje exercem no mundo, criando feudos e transformando-os em negócios lucrativos.

Se em 1984 os cidadãos sabem que estão sendo vigiados, criando o medo permanente e a quase certeza de punição, na sociedade contemporânea a vigilância é mais discreta, feita de outra forma, mas está igualmente disseminada. Hoje, grande parte da vida cotidiana ocorre nos ambientes digitais e eles são monitorados, colhendo dados pessoais de forma contínua. A diferença hoje está no consentimento: as pessoas entregam informações voluntariamente em troca de serviços, conveniência e participação social, muitas vezes sem plena consciência das consequências.

Comparando as duas obras, o que vemos é a transformação dos meios de controle e doutrina. Se em 1984 o partido exerce o domínio da linguagem, da memória, da história e limita o pensamento, no presente o controle não se dá por um único discurso, mas pela multiplicação de vozes, versões e interpretações. A doutrinação, que no romance é feita pela censura e pela saturação das informações, na era contemporânea, se dá pela polarização e pelo reforço de crenças já existentes, maximizada pelas redes, inclusive com o uso de informações falsas.

Se, no caso de 1984, temos ficção, na contemporaneidade ou no que Zuboff chama de “capitalismo de vigilância”, criou-se um modelo econômico baseado na coleta de dados e no processamento deles com o objetivo de prever comportamentos e influenciar ações futuras. Cada pessoa, no final, transformou-se em produto e são seus dados que alimentam as máquinas das bigtechs e lhes dão o poder no atual tecnofeudalismo.

Diferentemente do Estado totalitário de Orwell, o poder contemporâneo está concentrado, em grande parte, nas grandes empresas de tecnologia. Elas não apenas observam, mas moldam comportamentos por meio de algoritmos que definem o que será visto, lido e consumido. O controle, portanto, não é exercido pelo medo explícito, mas pela indução silenciosa de escolhas.

A tecnologia é um elemento central no capitalismo de vigilância. Hoje, essa tecnologia está muito além da ficção imaginada por Orwell. Ela é, também, muito menos visível. Smartphones, câmeras, redes sociais e assistentes virtuais operam como sensores permanentes da vida cotidiana. O monitoramento não depende mais da observação individual constante, mas da análise de padrões coletivos, capazes de antecipar comportamentos e influenciar decisões em larga escala.

A escala da manipulação, comparando-se o mundo atual com o criado em 1984, também mudou. As tecnologias como deep fake — que conseguem tornar “real” qualquer coisa — com vídeos manipulados e conteúdos sem contexto, tornam o que é ficção plausível, tornando indistinguível a verdade da mentira. O resultado é a desconfiança generalizada e a dificuldade de distinguir fato de ficção. A semelhança está no efeito final: a fragilização do pensamento crítico. A diferença está na forma: a mentira deixou de ser centralizada e passou a ser distribuída, viral e muitas vezes impulsionada por mecanismos automáticos de engajamento.

Nesse cenário, afirmar que a ficção antecipou a realidade não significa dizer que vivemos exatamente a distopia imaginada por Orwell. O Grande Irmão não se materializou como uma figura única e autoritária, mas se fragmentou em sistemas, plataformas e modelos de negócios que operam de forma menos visível e mais eficiente.

A vigilância não é imposta com violência, mas incorporada à rotina como algo natural. A obra de Orwell, mais do que prever tecnologias específicas, antecipou a lógica do poder baseada na observação constante e no controle da informação. A diferença fundamental é que, hoje, esse controle muitas vezes se sustenta não pelo medo, mas pela adesão espontânea de indivíduos que, em nome da praticidade, abrem mão de sua privacidade e autonomia.

No final, a conclusão é que a realidade ultrapassou a ficção e a vigilância tornou-se onipresente, transformamos o que fazemos em produto e, ao mesmo tempo, em controle.

Compartilhe:

Twitter
Facebook
LinkedIn
Pinterest

Add a Comment

Your email address will not be published. Required fields are marked *

O Grande Irmão e o capitalismo de vigilância

A VIGILÂNCIA DIGITAL COMO ROTINA

Hoje, a realidade supera a ficção e o Grande Irmão, do romance 1984, de Orson Wells, foi superado pelo capitalismo de vigilância, que lucra com os dados de quem via, em todos os momentos da vida, através dos aplicativos e da internet.

Leia mais »
O brote, o pão pomerano dos capixabas, servido e à espera de ser consumido.

BROTE, O PÃO POMERANO DOS CAPIXABAS

O brote, o pão que os pomeranos criaram e que se tornou ícone cultura do Espírito Santo, é uma receita simples e fácil de fazer, resulta em um ótimo pão para o café da manhã, o lanche da tarde ou, mesmo, para um sanduíche à noite.

Leia mais »
Um pão básico e rápido feito com fermento natural que ficou ótimo

PÃO BÁSICO RÁPIDO COM FERMENTO NATURAL

O pão de fermentação natural pode ser feito de modo mais rápido e, mesmo assim, ser gostoso e saudável. É o caso desta receita, que acabei de testar. O meio para encurtar o tempo é deixar a massa fermentando durante a noite, estando pronta para ser moldada, fazer a segunda fermentação e ser assada logo na manhã do dia seguinte.

Leia mais »