O TODO MAIOR QUE AS PARTES

Não fui educado para isso, mas gosto de música clássica. Aprendi a apreciá-la e à criatividade dos compositores, mas isso foi acontecendo aos poucos, começando com peças mais curtas e indo para as mais longas, até chegar à  ópera, neste caso mais voltado para determinadas árias, cantadas por gente como Luciano Pavarotti e Maria Callas. O fato de gostar dos clássicos não me tirou o gosto pelo popular e ouço quase todos os tipos de música, do jazz ao samba e deste aos velhos sertanejos que povoaram minha infância e juventude devido à preferência de meu pai.

A música me acompanha no trabalho, fazendo o fundo para a atividade que desenvolvo, e no trânsito, aliviando a tensão dos engarrafamentos e das manobras malucas que a cada dia tornam-se mais comuns. Ela, na verdade, integrou-se à minha vida e como tudo que se integra às nossas vidas, acabamos não pensando nelas, pois tornam-se rotinas, assumidas como coisas que devem ocorrer sempre. Não é assim, no entanto. E o que me chamou a atenção para o tema foi um documentário não sobre música clássica, mas sobre músicos que a tocam. Chama-se Music from the inside out.

O que torna o filme muito interessante é mostrar a música, significando neste caso uma orquestra, a de Filadélfia, nos Estados Unidos, vista pelos músicos. É curioso descobrir que são pessoas normais, com aspirações e frustrações e que se portam com o cidadãos comuns quando não estão no palco executando as mais complicadas peças musicais. Existe o caso do violinista cujos pais sonharam que seria uma estrela. Não foi. E concluiu que seria melhor aderir a uma orquestra, integrando os primeiros violinos. Ou de outra violinista, que decidiu-se pelo instrumento para contrariar a mãe, que odiava o som dele.

São comportamentos muito humanos que não vemos quando todos se reúnem e a música começa. Há o caso do violoncelista judeu que venceu o preconceito e reuniu-se com outro musico árabe, apresentando-se juntos, sem levar em consideração a separação política. Ou do percussionista que liga para os compositores tentando descobrir os sons originais que levaram-no a escrever uma determinada sequência rítmica. Os astros do documentário são, ao mesmo tempo, a música e as pessoas que a produzem. Elas não são um ajuntamento amorfo, sem personalidade, que se submete à direção do maestro e acaba produzindo a bela música que ouvimos.

O que fica claro é que produzir boa música, cada um tem de se superar, aprender, avançar e, ao mesmo tempo, cooperar. No meio de tudo estão atitudes humanas. São pessoas que fora do palco são exatamente iguais a nós. A diferença é que, além de amar a música, vivem dela profissionalmente, dedicando-se o melhor de suas vidas para levá-la a quem aprecia as composições sinfônicas, sejam as clássicas ou as contemporâneas, por mais dissonantes que sejam.

Alguém já disse que o resultado conseguido por uma orquestra é quase um milagre, exatamente por reunir pessoas tão díspares que formam um conjunto impecável e produzem música de alta qualidade. O documentário, no meu entender, confirma isso. Mas mostra, claramente, algo que não fica evidente nos concertos: uma orquestra é maior do que a soma de todas suas partes. O que todos produzem algo que, individualmente, jamais seria conseguido. A orquestra prova que a cooperação entre as pessoas é possível e quando ela se dá¡ o resultado é maior do que a ação individual.

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