O QUE OCUPAVA MINHA IMAGINAÇÃO

O Brasil e os brasileiros perderam a identidade e hoje cuidam de festejar o hallowen, uma manifestação que nada tem a ver com nossas tradições. Enquanto isso, personagens como Saci Pererê e Curupira, típicos brasileiros, estão sumidos, perdidos. Já não estimulam a imaginação de ninguém, como na minha infância. Não será a hora de retomar os nossos mitos, ritos e personagens folclóricos, fazendo com que voltem a viver e ganhem a imaginação de todos? Esta blogagem coletiva é a oportunidade para levantar a questão. Quem pode responder?

Quando criança e até adolescentes os personagens que ocupavam a minha imaginação eram bem outros, diferentes dos que ocupam as mentes dos jovens de hoje. Pra começar, minha mãe sempre destacava, quando se falava em mitos, assombrações, saci-pererê ou curupira que tudo isso era invenção, que não precisaria me preocupar, pois tais coisas não existiam.

Sim, é verdade, não existiam. Como não existem hoje. Mas nem por isso deixava de imaginar como seria, de verdade, um saci andando em uma perna só. Ou um curupira, com os pés virado ao contrário e indicando que, para onde parecia que estava andando era, na verdade, de onde vinha. Ao lado deles ficava, ainda, imaginando como seria uma assombração e se, em noite escura, ela viria nos assustar.

O que sabíamos, e víamos reproduzido nas folias de reis, era uma permanente luta do bem contra o mal, o que era reforçado pelos sermões do Monsenhor Pavezi, o pároco local, ou seu substituto, Monsenhor Belloti, austeros sacerdotes que sempre usavam batina preta e, de forma explícita, nos dizia que se não fôssemos obedientes e seguidores dos ensinamentos da Igreja o que nos estaria reservado era o inferno. E nele, pelo que pintava, tinha coisa muito pior do que o saci e o curupira.

Havia, ainda, outras manifestações, mas elas ficaram distantes, cada vez frequentadas por menos pessoas. No final, todos nós nos deixamos levar por uma nova cultura, a de massas, que através da televisão nos mostrou novos mundos, nos trouxe novos costumes e nos criou novos demônios, transformando o medo que era local em algo globalizado. E na esteira dessa mudança, as brincadeiras do saci e as peças pregadas pelo curupira foram substituídos pela horrível cara do hallowen.

Aos poucos, este produto tipicamente importado, foi ganhando espaço entre os jovens, mais ligados na televisão. E os mitos nacionais, também aos poucos, foram sendo esquecidos. O saci saiu do Sítio do Picapau Amarelo e não voltou. Como o curupira não tinha um Monteiro Lobato para imortalizá-lo, acabou nem aparecendo e foi, também, suplantado pelo que importamos, adotando uma cultura que, inicialmente, não era nossa. Meus filhos já viveram o tempo do hallowen, promovido na escola em que estudavam.

Há um outro lado a considerar, que é a promoção feita pelos meios de massa daquilo que vende, que pode gerar lucro e que pode ser produzido em série. A globalização permite a standartização, com um único produto sendo feito para todo o mundo. E não dá para fazer isso com a cultura local, que varia de localidade para localidade. Veja o caso da folia de reis, uma bela representação da eterna luta entre o bem e o mal, que é diferente em cada lugar em que é encenada.

Com a mudança, as nossas manifestações – o saci, o curupira e tantas outras – acabaram se transformando no pitoresco, o que chama a atenção por um minuto mas logo depois é esquecido. Não há como internacionalizá-los, criando padrões. Então, é preciso adotar os padrões já existentes, disseminados, com ritos estabelecidos, como é o caso do hallowen que, até no nome, é estrangeiro. Não temos uma tradição de bruxas, como na Europa e Estados Unidos. E isso transforma esta manifestação em absolutamente artificial.

Neste caso, como em vários outros, fomos internacionalizados. E é por isso que vemos a comemoração do hallowen, mas nada que fale das nossas velhas tradições. E não se afirme que é saudosismo, pois não é. Mas o fato é que, adotando um “novo folclore” – que não é nosso – estamos colocando de lado os ritos, mitos e fatos culturais que, apesar da globalização, ainda persistem no país.

Talvez, aproveitando-se desta blogagem coletiva promovida pelo Vida Blog e destinada a falar sobre a importação do folclore, fosse hora de falarmos das velhas tradições, retomar aos velhos mitos e fazer com que, tal como na minha infância, o saci, o curupira e outros personagens da nossa cultura popular preencham a imaginação de nossos jovens e crianças.

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