Insatisfação existe, mas o que o povo quer, na verdade?

O QUE MESMO O POVO QUER?

Desde que surgiram, as pesquisas de opinião pública mostram, quando feitas de modo acurado, um retrato do momento da opinião popular. Elas erram, todos nós sabemos, mas as margens de erros são pequenas e ocorrem, no mais das vezes, quando não são feitas de modo constante, passando longos períodos sem medir o que o povo pensa. Pode-se argumentar, contra elas, que podem ser manipuladas, o que é verdade. Mas as empresas sérias vivem de sua credibilidade e se os resultados apresentados forem muito diferentes da realidade, elas o perdem e, com isso, clientes e dinheiro. Neste caso, a honestidade é boa para os negócios. Dito isso, vamos ao ponto: as manifestações que levaram às ruas milhões de brasileiros que pediram e continuam querendo mudanças.

O que mesmo o povo quer? Esta é a pergunta mais comum que ouço. Perplexas, as pessoas não alcançam que tipo de mudança a multidão, que não tem um líder para se expressar por ela, quer. As agendas são as mais diversas e não tem havido, a não ser em casos esporádicos, um foco no que pedem. Nesta hora, a pesquisa de opinião pode ajudar. Tomemos o caso do Espírito Santo. Aqui, temos um instituto, o Futura, que está no mercado há vários anos e tem apresentado resultados acurados nas pesquisas que faz, sobretudo quando se trata de aferir preferências eleitorais. Pois seus pesquisadores foram às ruas e perguntaram para a população o que ela queria que mudasse e, não só isso, se era favorável às manifestações.

À segunda questão, 94 em cada 100 ouvidos disseram que sim, são favoráveis às manifestações. Quando ao que querem, o resultado é, também, muito revelador. O que o cidadão mais quer que mude é a saúde e a má assistência que o serviço público dá, hoje, a quem o procura. Mais de 70% dos entrevistados colocaram a saúde em primeiro lugar e elegeram como segundo ponto a educação, com quase 60%. Façam as contas: De cada 100 pessoas, 70 querem mudanças na saúde e 60, na educação. Estes são pontos muito claros e percorre todas as faixas de idade, classe social e nível de ensino. O terceiro item, com índice bem menor do que os dois anteriores, é o combate à corrupção, com 27,5 dos entrevistados a apontando como prioridade.

Se, de um lado, a pesquisa responde ao quesito “o que o povo quer?”, de outro deixa claro que alguns pontos na agenda de manifestantes não lhes atrai, assim, muito. Veja-se o caso do passe livre. Apenas 5,5% consideram que este deva ser um assunto tratado pelo poder público, um índice, no meu entender, muito baixo, o que indica que, para a população, ele não é prioritário. Aqui, no Espírito Santo, temos um caso emblemático, que é o pedágio da Terceira Ponte. Defendendo o seu fim, manifestantes ocuparam a Assembleia Legislativa e se confrontaram com a Polícia quando da votação de um decreto que suspendia este pedágio. O que fizeram – e que ecoou no Legislativo – era, diziam, em defesa da população, que quer o fim da cobrança. Se é assim, não é o que diz a pesquisa da Futura. Nela, apenas 0,2% apontam o pedágio como prioridade. Se extrapolarmos este percentual para a população do Estado, que está próxima de 4 milhões de pessoas, teríamos menos de 80 mil dizendo que a suspensão da cobrança de pedágio é uma prioridade.

Por que estes números? Eles são importantes diante das várias cortinas de fumaça existentes, levantadas tanto pelo próprio poder público, quando por entidades como centrais sindicais e outras entidades. Se no Espírito Santo a opinião pública tem um desejo claro, acredito que seja assim, também, no resto do Brasil. As pesquisas feitas comprovam isso e são, efetivamente, um retrato do momento. O que a população quer está claro e ela tem prioridades claras, achando que a saúde, a educação e o combate à corrupção devem ser atacados de imediado. Depois, vem outros itens que, no entender dela, não são assim tão prioritários.

Responder à pergunta “o que mesmo o povo quer?”, ao contrário do que dizem os donos do poder, é muito fácil. Basta olhar as pesquisas e, nelas, ver o que a população efetivamente está dizendo.

Uma resposta

Entre na conversa