O CORPO VENDIDO EM PARTES

Nós, seres humanos, somos capazes dos mais bonitos gestos. Mas somos também responsáveis pelo que há de pior no planeta e este retrato é bem mostrado no filme O Senhor da Guerra, em que Nicholas Cage faz um traficante de armas com uma ética distorcida, mas que conta, por trás das cortinas, com o apoio de países e de indústrias poderosas que dependem deste tipo de ação para conseguir lucros, mais vendas, mesmo que seja ao custo de milhares de vidas.

O comércio de armas, como sabemos, é um dos maiores do planeta – veja Matar o pobre e acabar com a pobreza – e uma pequena fração dos recursos que movimenta daria para acabar, por exemplo, com a fome no mundo. Mas se este é um comércio exposto, existem outros de que ninguém fala, como é o caso da compra e venda de órgãos humanos, verdadeiramente uma venda em partes do corpo. Sim, aqui no Brasil, inclusive, existem grupos especializados na venda de órgãos humanos.

Como eles são conseguidos? De diversas formas, incluindo, pelo pouco que pude achar na Internet, através do “assassinato” de doentes que tem um problema grave, mas tem, também, órgãos saudáveis que podem ser vendidos por um bom preço. A Universidade de Berkley, nos Estados Unidos, tem um site que dá informações sobre o assunto, mostrando, dentre outras coisas, que em países pobres a venda de um órgão pode representar um bom dinheiro. E isso é bem explorado por esta indústria que visa a servir, sobretudo, ao chamado primeiro mundo.

Imagine alguém no interior do Brasil, bem pobre, que receba, por exemplo, a oferta de 100 mil reais por um rim? É um dinheiro que ele nunca verá na vida. E o que dirão a ele é que pode viver com um único rim, vendendo o outro. A proposta é por demais tentadora e é isso que atrai quem vende seus órgãos, aqui e em outras partes do mundo. Exagerei no valor da oferta, mas o valor de um rim pode chegar até 500 mil dólares no mercado negro de órgãos.

Repete-se, neste caso, a ética distorcida com a compra e venda de partes do corpo como se fossem um produto. O mercado, neste caso, é comprador, daí o alto preço dos órgãos. E como sabemos, neste capitalismo selvagem em que vivemos, se há quem deseja comprar, sempre irá aparecer quem tenha para vender. Não importa, no caso, se houve doação – o que é legal e ético – ou se o órgão foi conseguido por meio ilegal. O objetivo, no final, não é salvar uma vida, mas obter lucro com a venda.

Área sensível, pouca informação circula sobre ela. Tente o Google e verá que não encontrará muita coisa e, no mais das vezes, informações velhas. Só garimpando é que se consegue alguma informação. E ela nos diz que o problema existe, que é grave, que na América do Sul, na Ásia e na África existe um próspero – e clandestino – comércio de órgãos humanos. Quem tem dinheiro pode comprá-los, saindo das filas oficiais de transplante e resolvendo seu problema sem olhar de onde vem o órgão que está recebendo ou a forma como foi conseguido.

Por que isso? Fiquei chocado com um programa transmitido por um canal a cabo, que peguei pelo meio. O que mais me chamou a atenção foi o preço dos órgãos, que pode chegar a centenas de milhares de dólares. E fiquei imaginando como eu me sentiria se recebesse uma proposta de venda de um rim, ganhando algo em torno de 500 mil dólares? É claro que o dinheiro é tentador, mas saberia discernir que não estaria fazendo o certo. A decisão, no entanto, está ligada ao fato de que tenho casa, carro, comida, emprego, etc.

O que aconteceria se a oferta fosse feita a quem nada tem? A lógica da situação é que, se não resolvermos a questão da pobreza não vamos acabar com o tráfico de órgãos e com vários outros tipos de tráfico, inclusive o humano, para a prostituição. Onde há lucro – e nestes setores há grandes lucros – sempre terá alguém capaz de seguir com o “negócio”. É a lógica do capitalismo: se alguém quer comprar, há sempre alguém disposto a vender.

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