INSEGURANÇA NOS TEMPOS LÍQUIDOS

insegA (in)segurança é um assunto recorrente. Em qualquer grupo em que estejamos ele surge e cada um tem uma história diferente para ressaltar os tempos inseguros em que vivemos. Ou, então, reclamar – o que todos fazemos – que o Estado não dá atenção à segurança e isso nos faz viver, na maioria das vezes, com medo.

O que nos levou a isso? Não sou especialista para responder. Poderia, é verdade, dar uma série de palpites, mas eles seriam, no final, irrelevantes. Acho, contudo, que uma boa perspectiva para discutir a questão é a abordada por Zygmunt Bauman, um filósofo (?) cujo principal tema é a pós-modernidade e as mudanças que ela provocou em nossas vidas.

Em seu livro, Tempos Líquidos, ele faz uma distinção entre medo e insegurança. A segunda pode ser gerada pelo primeiro, mas não necessariamente. A insegurança, defende, decorre muito mais da situação em que vivemos e tem a ver com a perda das tradicionais âncoras a que sempre recorremos, como emprego, família, religião, etc. Os três, para ficar apenas neles, eram instituições fortes e a elas sempre podíamos recorrer quando em dificuldade.

E hoje? A família, o primeiro porto que todos temos, já não é a mesma. Deixou de ter os moldes tradicionais, tornou-se mais aberta e nela, como em tudo o mais, entrou a competição. Além disso, temos as famílias não formais e até a opção por não se ter família. Nos tempos atuais, muitas vezes atua mais como problema, gerando mais insegurança, do que um porto seguro.

Quanto ao emprego, estamos chegando ao fim dele, como o víamos. A estabilidade se foi. O emprego que durava anos e anos, também. Você sabe que está trabalhando em um lugar hoje, mas não pode garantir que estará amanhã e isso gera mais incerteza e, com ela, vem novamente a insegurança.

Por fim, vem a religião. Ela já não tem a influência que tinha antes e, na multiplicação de crenças e de credos, acaba por representar também um fator de insegurança, pois divide as pessoas e até famílias, separadas por crerem em coisas diferentes. Não há, ainda, tolerância e isso tanto em nível macro, quanto no mínimo. Mais um passo no sentido da insegurança.

Como nos tempos em que vivemos – que Bauman chama, no meu entender de forma correta, de tempos líquidos – nada é permanente, tudo muda. E como tudo muda, a gente nunca está seguro. E é essa insegurança estrutural que acaba levando ao medo, não aquele que nos preserva, mas o que nos transforma ainda em mais inseguros. E não é com a ampliação da polícia, com maior presença do Estado, que vamos reverter a situação.

Os tempos mudaram. E com ele veio a insegurança, que é institucional, fruto do sistema, que privilegia o individual, o consumo, a troca, a substituição, a perfeição do corpo. E, sabemos, somos grupais, temos limite de consumo, não conseguimos substituir tudo o que queremos e nossos corpos não são perfeitos. O desejo se sobrepõe à realidade. Idealizando algo que não vamos conseguir, geramos mais insegurança, que cresce com o medo do fracasso.

Vivemos um círculo vicioso e quando mais nos esforçamos para nos integrar, mais inseguros ficamos, pois nunca temos certeza se iremos conseguir ou não. O que fazer? Bauman não aponta um caminho, pelo menos em Tempos Líquidos, apenas constato que está acontecendo. Eu, o entanto, acho que uma das saídas é uma vida mais simples, menos baseada no consumo, na satisfação pessoal, menos individualista.

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