Esportes na TV: Narradores que dizem o óbvio

ESPORTES NA TV, A REPETIÇÃO DO ÓBVIO

Quando criança e adolescente, morando primeiro na área rural e, depois, em uma pequena cidade do Espírito Santo, a televisão em casa era, ainda, uma coisa distante. O rádio era por onde todos nos informávamos e nos divertíamos, ouvindo as músicas de sucesso, acompanhando os cantores e cantoras favoritas e torcendo pelo time de predileção. Uma das coisas que me chamava a atenção era a narração de esportes, sobretudo futebol. Ouvindo a transmissão dos jogos parecia que a bola corria em alta velocidade e eu ficava impressionado como os narradores conseguiam seguir o ritmo do jogo.

Eu era ingênuo, como descobri mais tarde, quando a televisão chegou e sua tela ocupou o lugar do rádio. Os jogos, na verdade, eram muito lentos e as bolas que, na narração do rádio, passavam “raspando ao travessão”, muitas vezes saiam pela linha de fundo, próximo à bandeirinha do escanteio. Não há dúvida, no entanto, que os narradores de rádio como Doalcei Camargo, Waldir Amaral e Jorge Cury criaram uma escola e vejo ela refletida, até hoje, em alguns dos profissionais que fazem a narração dos jogos na televisão.

Estas semelhanças, na verdade, não são favoráveis a estes últimos, pois na televisão temos a imagem que nos mostra, através das inúmeras câmeras usadas na transmissão, exatamente o que está acontecendo. E é por isso que, em muitos casos, o que vemos é explicado em mínimos detalhes pelos narradores, tornando sua narração uma repetição do óbvio. É como se estivéssemos só “ouvindo” a partida, como antigamente no rádio. Nele, sim, era preciso contextualizar tudo. Na TV, não, pois a imagem supre isso, fornecendo a informação direta, bastando apenas que olhemos para ela.

E o que vemos? Tempo da partida, nome e numeração dos jogadores, dribles, faltas, jogadas bonitas, faltas feias, craques e pernas de pau. E o que acontece na transmissão? Os narradores ficam nos dizendo o óbvio, aquilo que estamos vendo e ainda acrescentam uma série de clichês e bordões que nada tem de criativos. Eles falam, falam e falam, como se tivessem de preencher o tempo, suprindo a falta da imagem, que é muito mais reveladora e fornece a informação direta, sem necessidade de floreio ou comentário.

O que recebemos nestas transmissões não são, na verdade, informações. Os narradores se esmeram em descrever o que estamos vendo. Falam, a toda hora, o tempo do jogo e seu placar. Repetem o nome e o número dos jogadores e juízes. “Informam” que um jogador errou uma jogada e chegam ao cúmulo, como aconteceu no jogo que vi, de dizerem que os jogadores estavam com frio, pois usavam luvas e proteção no pescoço. Será que isso é informar? Creio que não. O que temos é a superposição do que vemos e que, às vezes, não bate com o que é mostrado na tela, criando o mesmo clima do rádio, antigamente, onde a narração era muito mais uma ficção do que a realidade do que ocorria em campo.

Existem exceções, é claro, apenas para confirmar a regra. Mas na maioria dos casos, as narrações esportivas na televisão são a repetição do óbvio, com explicações que não explicam e que se superpõem à imagem, que é mais limpa e muito mais direta. É a era do rádio repetida em um meio que é totalmente diferente.

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