A ROUPA DO DEFUNTO

Existem estórias que parecem inventadas, feitas para nos divertir. Elas ficam mais interessantes quando descobrimos que não foram criadas, mas que aconteceram, relatadas por quem as presenciou ou vivenciou. Aqui, no blog, existem algumas destas estórias, como Isso é coisa de mulher, envolvendo uma amigo bem próximo e que, quando contada, nos fez – a todos que a ouviram – dar boas risadas. Ela não é a única, pois existem outras. Se estiver interessado, dê uma procurada no blog que irá encontrá-las.

Mas vamos voltar à  questão: Desde o ano passado estou envolvido na produção de um livro de um amigo jornalista. Ele é um dos pioneiros do radiojornalismo no Espí­rito Santo, um profissional respeitado do rádio que, hoje, não é assim tão conhecido. Na época do regime militar, ele foi um bravo defensor da liberdade de expressão, noticiando coisas que o regime não queria e buscando fazer um jornalismo sério. O livro não envolve a história do autor, mas traz uma biografia dele. Ela, no entanto, se revela quem é, não é importante para este post.

A ideia do livro é publicar uma série de textos que o autor escreveu ao longo dos anos e que não publicou. São artigos que falam das mais diversas coisas, indo do pessoal â polí­tica e, desta, para o comportamento. E é exatamente neste último que fica a estória que conta e que, em determinado momento, propus que fosse o tí­tulo do livro. Conservador, meu amigo não aceitou. Mas seria um ótimo tí­tulo, ainda acho, e é por isso que de forma resumida a vou contar. A estória é real.

Para situar a questão melhor é bom dizer que o meu amigo, profundamente religioso, costuma falar em alguns velórios e enterros, só o fazendo quando solicitado. E foi isso o que aconteceu. Na hora do enterro, o caixão foi movido para o local apropriado e, ainda descoberto, ficou sendo observado pelo coveiro. O morto estava bem vestido, de terno, e era mais ou menos do mesmo tamanho do profissional encarregado de enterrá-lo. O meu amigo falou e o enterro foi feito.

À medida que todos iam se afastando, meu amigo foi abordado pelo coveiro. Meio constrangido, falou-lhe sobre a roupa do defunto e perguntou se não a podia tomar emprestado. Surpreso, meu amigo quis saber os detalhes. O coveiro, pobre, não tinha recursos para comprar um terno e tinha, no final de semana, o casamento de um familiar. O que ele queria era tirar o terno do defunto, limpá~lo, se estivesse sujo, usá-lo e depois devolvê-lo ao legí­timo dono. O morto nada sofreria e receberia o terno de volta, com todo o cuidado.

Não sendo o “dono” do defunto, mesmo surpreso, meu amigo foi conversar com quem tinha acabado de perder um ente querido, disposto a defender o pleito do coveiro. De iní­cio, encontrou relutância, mas acabou conseguindo o empréstimo do terno. O coveiro fez exatamente o que propusera. Retirou o terno do corpo, preparou-o e o uso no casamento. Depois, voltou e o devolveu ao morto.

A propósito da estória e do livro, o tí­tulo que queria lhe dar era “O terno do defunto”. Ele sem dúvida chamaria a atenção e daria ao livro um tom de dubiedade, gerando curiosidade e levando à  sua leitura. Meu amigo não aceitou e, no final, o livro chamar-se-á “O Palácio e o Gato”, que também é interessante, mas a história da roupa do defunto continua nele e, na minha opinião, é um dos artigos mais interessantes que escreveu.

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