A NOT͍CIA VIRA O ESPETÁCULO

Quando se fala em notícia, dois caminhos podem ser apontados para se basear o que será dito. O primeiro da linha francesa, que fala do acontecimento e o classifica como algo que irrompe em um determinado momento, tornando-o visível e, com isso, gerando notícia. O segundo de padrão mais dos Estados Unidos, que vê um lado do jornalismo que chamam de hard news, significando, de uma maneira geral, que tem maior profundidade, abordando as questões que enfoca dos vários lados e discutindo seus aspectos.

Estas duas abordagens nasceram da análise do jornalismo impresso que, durante muitos anos, foi “a mídia”. A sociedade, como um todo, como muito bem lembra Guy Debord em seu A Sociedade do Espetáculo, começa a viver um novo meio, em que o espetáculo e sua aparência é que começaram a comandar tudo, do entretenimento à política e, desta, para a própria mídia, seja que meio ela use. As afirmações de Debord, feitas inicialmente nos anos 60 do século passado, vem ao encontro de uma observação de Andy Wahrol para quem, em um determinado tempo, todos teriam os seus 15 segundos de fama.

A que vem tudo isso? A reflexão – se é que se pode chamá-la assim – vem do noticiário na internet, nos jornais e em outros meios sobre a saída de Fátima Bernardes da bancada do Jornal Nacional, da Rede Globo. Ela mostra, claramente, que na sociedade do espetáculo em que vivemos, o jornalista é a própria notícia e, às vezes, mais importante do que ela. O fato de apresentar o mais popular jornal da televisão no Brasil a transformou em celebridade, incluindo-a no próprio espetáculo que, todos os dias, ela vinha anunciando.

O que vale, aqui, é a visibilidade e o que ela diz de quem é visível. Neste caso, a aparência é o que importa, exatamente por ser um espetáculo e estar inserido em uma coisa maior, que é a sociedade, que também vive este espetáculo e, portanto, participa dele, voluntária ou involuntariamente. Até entendo que a saída de Fátima seja notícia, mas não vejo nela a amplitude dada pela mídia. Ela ganhou muito mais destaque do que a decisão da Presidente Dilma Roussef de manter no cargo um ministro, Carlos Luppi, condenado pela Comissão de Ética do próprio Governo. E na certa este é um fato muito mais importante do que uma mudança nos apresentadores do Jornal Nacional.

O que a notícia mostra é que, no jornalismo de hoje, o acessório virou o principal e, sobretudo, que a notícia virou um espetáculo, secundando a própria sociedade e dando repercussão e fazendo eco ao que ela própria é. O que vimos é uma banalidade transformado em algo importante, chegando à categoria das notícias mais lidas em vários sites da internet. Celebridade dentro de um mundo onde há várias outras pessoas conhecidas, mas que é feito pelos anônimos que não aparecem, Fátima Bernardes teve muito mais do que os 15 segundos de fama previstos por Wahrol.

O que tudo isso nos ensina, pelo menos olhando do lado do jornalismo, é que o acontecimento, o hard news, a notícia bem apurada e o trabalho de muitos profissionais não mais importa. Ele só serve para fornecer o pano de fundo de pessoas que, por exercerem uma posição que lhes dá visibilidade, acabam tornando-se, elas próprias, notícia, mesmo que o que façam não tenha, em termos mais significativos, nenhuma importância para a sociedade.

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