A MORTE COMO INIMIGA

Entropia não é uma palavra muito usada, mas define, de forma perfeita, o que somos – e o que também é o mundo em que estamos e que nos cerca. Uma explicação simples para ela é que tudo que começo tem um fim. Há um ciclo de vida, seja ele destinado a nós, humanos, que é muito curto, seja para um corpo celeste, como uma estrela, que é de alguns bilhões de anos, de acordo com o que nos dizem os cientistas. Nascer e morrer, assim, fazem parte deste ciclo entrópico, que nos dá um começo, mas que nos apresenta, depois, um fim.

Mas o que tudo isso tem a ver com o título? É fácil de explicar. As religiões – e vejo que uso o plural – apontam-nos ou levam-nos para um ciclo diferente do que nos oferece a entropia. Vejamos o caso dos cristãos, de quem estamos mais próximos, já que é a crença dominante no Ocidente. O que dizem – e com isso concordam, também, os muçulmanos e budistas – que a morte não é o fim de tudo, mas o início de uma nova vida, que seria, dependendo de como nos portarmos, muito melhor e eterna. O que a crença nos oferece, no caso das trás maiores religiões monoteístas – cristianismo, islamismo e judaísmo – e uma politeísta – budismo – é que não morremos, apenas passamos a outro plano.

A religião, neste caso, nos oferece a possibilidade de transformar algo finito em uma coisa infinita, já que a vida após a vida, é eterna. Podemos viver no paraí­so cristão, no nirvana budista ou é no paraí­so islâmico, cercado de belas mulheres, mas estamos, em todos estes casos – e também no de outras religiões – superando a morte, contornado a entropia e deixando algo que iniciou – a vida – sem fim – a morte. Mas o fato de a crença nos remeter a uma vida futura, melhor que a que temos, não transforma a morte em inimiga, ou transforma?

Se deixarmos o lado religioso e olharmos a questão pelo lado cientifico, a explicação que temos, de forma bem simplificada, é que morrer é o medo final dos humanos. Sabemos, de antemão, que um dia estaremos diante dela e não temos como supera¡-la ou contorna¡-la, pelo menos não do lado físico. Então, procuramos superá-la usando o espiritual e concebendo um mundo pós-morte, onde recebemos todas as recompensas pelo que passamos na vida, pelo que sofremos, pelo que sacrifiquemos. A promessa, no entanto, exige que, na vida, aceitemos regras, prestemos homenagens e nos subjuguemos às regras que as religiões nos impõem. Só cumprindo-as é que conseguiremos a recompensa.

O sentido físico da morte, então, transforma-se em sentido figurado e ela só será nossa inimiga, de verdade, se não professarmos a fé, não acreditarmos em uma deidade e não cumprirmos o que dizem suas escrituras, ensinamentos ou pregações. Subsumindo-nos a algo maior, praticando o que recomendou e seguindo as regras, acabamos vencendo a última e mais impiedosa das inimigas do ser humano, a morte. Afinal, como todos  sabemos, ela é o fim de tudo, pelo menos do lado físico da questão. Olhando do viés religioso, a morte é, de modo efetivo, uma inimiga, que só podemos vencer superando nossas fraquezas, reconhecendo nossos erros, portando-nos de forma correta para, no final, conseguirmos a recompensa maior, que é superá-la e ao termino do que somos.

Sem dúvida, para os que creem, é um conforto.

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