A IRREST͍VEL ATRAÇÃO DO ESPELHO

Será mesmo que Narciso, como diz Caetano Veloso, acha feio o que não é espelho? A questão me veio durante uma das subidas – ou será descida? – no elevador do prédio onde tenho escritório. Se você prestar um mínimo de atenção verá que é surpreendente como as pessoas se comportam, atraídas pelo amplo espelho que equipa o elevador e que, como afirmam os psicólogos, ajuda a torná-lo menos claustrofóbico, dando-lhe uma profundidade que, na verdade, o pequeno quadrado não tem.

Sou, por assim dizer, um usuário intensivo de elevadores. A explicação é simples: morro em um edifício e uso o elevador todos os dias. E também trabalho em um edifício e, nele, subo e desço várias vezes, com saídas para contatar clientes, atendê-los ou para almoçar, tomar um café, fazer um lanche. O trabalho, neste caso, se une às necessidades ou a um pequeno prazer, como é apreciar um bom café. E em todas essas ocasiões, quase sempre tenho companhia.

E por tê-las, fico observando o comportamento que adotam. Os homens, por exemplo, checam a gravata, olham o cabelo e aproveitam, para de modo disfarçado, olhar as mulheres que estão nos elevadores. O reflexo no espelho lhes permite que não as encare e mesmo assim as vejam, apreciando-as ou não. As mulheres, por sua vez, têm atitudes diferentes. Umas, apenas se olham rapidamente. Outras, são mais cuidadosas, conferindo detalhes da roupa. Algumas checam para ver se a bunda está empinada, destacada pela roupa.

O fato é que ninguém consegue ficar indiferente ao espelho. Ele funciona com um atrator para todos. Mas em alguns casos, há pequenos exageros. Um dia desses, na hora do almoço, entrei no elevador, já ocupado por uma senhora que, com toda tranquilidade, usava o espelho para se maquiar, começando pela aplicação de um creme e, depois, seguido com os outros produtos e ingrediente. E tudo como se estivesse em casa, em frente ao seu espelho, na maior tranquilidade.

É uma teoria que, na certa, não irei comprovar, mas acho que ao se depararem com um imenso espelho, que ocupa uma boa parte do elevador, as pessoas se esquecem de onde estão, com o mundo se resumindo apenas à imagem, que é a sua, vista do outro lado do vidro. Será que é isso mesmo? Por que será que o espelho é tão irresistível? Será porque nos vemos refletidos e, no reflexo, nossos pequenos – ou grandes – defeitos? Ou será mesmo um exercício narcísico, de nos admirar, acertando os pequenos detalhes que nos parecem fora do lugar?

Teoria à parte, subir e descer no elevador, quando ele tem mais pessoas, acaba, no meu caso, se transformando em divertimento. E quem o produz são as pessoas – passageiros? – que o utilizam. Afinal, todos estão reproduzindo pequenos gestos, reproduzindo comportamentos e preenchendo o que podemos considerar o cotidiano, algo que é feito, como frisam os estudiosos, de pequenos gestos, de pequenas ações. Juntas, elas formam um quadro e, nele, o que vemos é a irresistível atração de um espelho.

E tudo isso me faz pensar: Será que o que vemos é o mesmo que os outros vêm quando estamos refletidos no espelho? Gostaria de saber o que vocês pensam.

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