Em festa de família sempre aparece um “causo”, e não foi diferente naquela de que participei há algum tempo. Lá pelas tantas, quando a conversa enveredou para tecnologia, falando dos celulares e de novas tecnologia, um dos primos, visitante ocasional e sempre bem-informado sobre as histórias alheias, disse que tinha ouvido algo engraçado numa outra reunião da família, da parte que mora em Minas Gerais.
“Vocês se lembram do primo Antônio?”, começou ele.
Algumas cabeças balançaram. Mesmo quem o via raramente lembrava: sujeito simples, discreto, morador de outro Estado.
“Então… há uns meses ele comprou um desses telefones modernos, cheios de funções que ele nunca usou e provavelmente nunca vai usar. Só liga e atende. Nem WhatsApp ele tem.”
Fez uma pausa estratégica, tomou um gole d’água e olhou em volta para medir o interesse da plateia. Como viu que tinha conquistado a atenção de todos, continuou, saboreando cada detalhe.
“Estava ele numa festa, dessas bem animadas, quando de repente pediu licença e sumiu.”
Os ouvintes começaram a imaginar mil possibilidades dramáticas. Mas não. O primo Antônio tinha simplesmente ido ao banheiro, vítima de uma súbita indisposição. O que ninguém sabia, e o narrador contou depois, já quase rindo, é que ele estava com o celular no bolso.
Fez suas necessidades, levantou-se e, nesse exato momento, o telefone escorregou. Um mergulho direto. Um “ploc existencial”, como o próprio Antônio descreveu mais tarde. Silêncio absoluto. Aquele segundo em que a pessoa percebe que a vida é feita de escolhas e nenhuma delas previa um salto ornamental sanitário.
Sem alternativa, o primo “pescou” o aparelho. Abriu a torneira da pia e o lavou ali mesmo, torcendo para que sobrevivesse ao duplo banho, o primeiro nem tão limpo assim. Depois, enxugou tudo com papel higiênico. Segundo ele, o telefone ficou “meio úmido emocionalmente”, frase que, contada na festa, arrancou as primeiras gargalhadas.
E não é que o aparelho voltou a funcionar? Antônio saiu do banheiro acreditando no milagre tecnológico. Só que, enquanto retornava para a sala, a tela começou a piscar: uma chamada. Atendeu. Do outro lado, a voz soava como se viesse de dentro de uma caverna. Enquanto tentava conversar, viu a bateria despencar diante dos próprios olhos. De repente, silêncio absoluto. Tela escura. Nem mesmo ao conectar na tomada o celular deu sinal de vida.
Era domingo. Na segunda-feira, lá foi Antônio até o técnico, conhecido de longa data. Cumprimentou-o, colocou o aparelho sobre o balcão e disse, com a maior naturalidade possível, que ele “simplesmente tinha parado”. Pediu que o amigo verificasse se havia feito “alguma coisa errada”.
O técnico levou o celular para dentro. Passado algum tempo, voltou com o aparelho aberto e mostrou a placa.
“Está vendo isso aqui?”, apontou para pequenos pontos de oxidação esverdeada. “Isso é umidade. Ele tomou um banho, não foi?”
Constrangido, Antônio confirmou com a cabeça.
“Água limpa?”, perguntou o técnico, mantendo o tom profissional.
“ÁGUA! Água normal! Potável!”, respondeu rápido e alto demais.
O técnico soltou um longo “hummmmmm” e ficou olhando fixamente para ele. A resistência durou pouco.
“Tá bom. Caiu no vaso”, confessou, derrotado.
Para encurtar a história: o técnico fez uma limpeza completa e conseguiu ressuscitar o aparelho. O celular voltou a funcionar quase normalmente.
Mas o primo Antônio, coitado, nunca mais foi apenas o primo Antônio.
Na família, ele passou a ser conhecido como o primo que pescou o celular na merda. Assim mesmo, com o termo vulgar.





