A fazenda não é um local limitado, mas o caminho para um mundo maior

O MUNDO MUITO ALÉM DA FAZENDA

Qual é o tamanho do seu mundo?

Esta é, certamente, uma pergunta retórica, já que não se pode medir mundos individuais, limitados por quem somos, o que fizemos e o caminho que percorremos. Também não dá para fazer comparações, determinando se um está certo e o outro, errado. O nosso mundo é gerado a partir de escolhas, sonhos e o percurso de um longo caminho, mas sempre começa em algum ponto, um que lhe dê o foco e o leve a decidir se quer ir adiante, alargar o seu horizonte, ou vai deixá-lo onde está, limitando o seu mundo ao local onde nasceu, cresceu e vive.

Por que tudo isso? Há algum tempo decidi falar, neste espaço, de experiências pessoais. Algumas, são fruto da reflexão de um novo tempo, quando a vida fica mais calma e e nos oferece a oportunidade de refletir sobre o caminho que percorremos, o que fizemos e onde chegamos. E foi nesta condição que comecei a pensar sobre o mundo em que me criei e como o alarguei. Filho de pequenos agricultores, cuja família tinha, há muito tempo, este mesmo tipo de atividade, acabei sonhando um pouco mais longe e adotei um caminho diferente. O que me despertou? Acho que o principal foi a imaginação. Primeiro, estimulada pelas estórias do meu avô, de suas viagens, das coisas que viu.

Ao ouvi-las, ficava imaginando como era o mundo além da fazenda e o que poderia ver dele se dela saísse. Depois, a leitura e um dos fatores foi o Almanaque do Tico Tico, publicação destinada ao público juvenil, que falava, dentre outros assuntos, sobre ciência. Lembro-me claramente do espanto de descobrir que após as nuvens, havia sol. Que havia aviões cortando os céus e grandes navios no mar, cuja água era salgada. Juntos, a informação e as estórias, incendiaram minha imaginação e quis experimentá-las eu próprio. Descobri que o único caminho que poderia me levar a isso seria os estudos e comecei a perseguir um intento de ir muito além do que meus pais conseguiram e de que muitos da minha família – ampliada – sequer imaginavam.

Estimulado, quis estudar e me esforcei ao máximo para ser um bom aluno. Nem sempre o consegui, mas ganhei o apoio de meus pais. A preparação poderia me levar a um concurso público, um cargo estável, uma boa carreira e, se a conseguisse, estaria encaminhado. Para que frequentasse a escola, meus pais fizeram sacrifícios, mudaram-se para a cidade e cheguei a um patamar onde meus amigos e meus primos não tinham chegado, a conclusão do era então chamado de ginasial. Mas não parei. Surpreendi meus pais dizendo que queria continuar a estudar e que, para fazê-lo, queria me mudar para a capital do Estado, onde também começaria a trabalhar. E o fiz.

A cada passo, as cercas da fazenda iam se ampliando e, com elas, o meu mundo se alargava. Estudos e trabalho, durante um tempo foram o meu foco. Passei pelo que se chamava de segundo grau, entrei na Universidade, fiz um primeiro e um segundo curso, entrei para a redação de um jornal, galguei postos, me casei, tive filhos e os vi crescer, ganhar rumo e se estabelecerem profissionalmente e cheguei ao atual momento, que me permite refletir sobre o que fiz e ver como o meu mundo se alargou, indo muito além do muro da fazenda. O trajeto que fiz foi pessoal, mas não sou o único a fazê-lo. A cada dia milhares de jovens sonham em ir muito além de seu próprio mundo. Alguns conseguem. Outros, não. Por que? Não sei dizer.

O que sei, pela experiência vivida, é que cheguei muito, mas muito mais longe do que imaginei que chegaria. Se me esforcei para conseguir, fui também muito ajudado ao longo do caminho. E esta ajuda veio da família, de amigos, de nova família formada, de colegas. O que descobri é que você pode, sim, ampliar o seu mundo, mas nunca o fará sozinho.

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