O RETRATO DE QUEM VOTA

Há no Brasil e em várias partes do mundo, como acabamos de ver com as eleições na Itália, um generalizado protesto contra os polí­ticos, vistos, na maioria das vezes, como desnecessários e, no mí­nimo, como gastadores, consumindo recursos que seriam melhor utilizados em outros campos, não na remuneração deles ou para dar suporte às casas legislativas. As crí­ticas, em sua maior parte, costumam ser justas, afinal vemos a cada dia desmandos e má utilização de recursos do cidadão.

Nesta situação, o que temos é a confusão, errônea, da polí­tica com os polí­ticos. Condenam-se os polí­ticos e, com eles, a polí­tica, que seria desnecessária e só traz gastos, nenhum benefí­cio para quem paga impostos e vota. Aqui, claramente, há um erro. O fato de existirem maus polí­ticos não significa que a polí­tica seja dispensável. É como se condenássemos a medicina pela existência de maus médicos, e todos nós sabemos que eles existem, como também tem nos mostrado o noticiário da mí­dia.

A polí­tica, que muitas vezes é feita pelos políticos, mas também por lí­deres empresariais, organizações, institutos religiosos, religiões, lí­deres comunitários e vai por aí­ afora, é não só necessária, mas essencial à  democracia que, como sabemos, pode não ser o melhor regime, mas é o único que permite liberdade e a convivência de contrá¡rios, o que permite, inclusive, que se critiquem os polí­ticos e a própria polí­tica, entendida aqui como algo mais geral.

Mudar a situação depende, basicamente, de voto. Hoje, como ontem, os Legislativos são o retrato de quem vota. Os polí­ticos são clientelistas? Sim, são. Mas mais que eles são os eleitores, que os cobrem de pedidos e entendem que o polí­tico existe para lhes fazer favor, o que fica muito distante do que é, efetivamente, a representatividade na democracia. Sim, o polí­tico é o representante do eleitor, mas não se seu interesse particular. Deve agir em favor da maioria, atendendo-a e aos anseios da sociedade, não se preocupando com o emprego de um eleitor, o seu atendimento no hospital municipal ou estadual ou em lhe dar bolsa de estudo.

Constatar que o eleitor é clientelista é muito fácil. Basta passar um dia em uma Câmara de Vereadores ou Assembleia Legislativa. De cada 10 pessoas que procuram um parlamentar, nove tem pedidos para fazer e eles são sempre pessoais, em nada interessando a comunidade onde vive. Se o polí­tico que recebeu o seu voto não o atende, perde apoio e acaba, no final, não sendo reeleito. O que se estabeleceu está muito aquem da polí­tica, como antevista pelos gregos e aperfeiçoada nos regimes como o dos Estados Unidos.

Refém do eleitor, que quer o atendimento pessoal, o polí­tico se molda ao retrato de quem vota. O resultado é que temos, em todos os ní­veis de Legislativo – que são, na verdade, apenas uma das instituições da polí­tica – parlamentares que ali chegaram aproveitando-se do clientelismo e fazendo dele o seu meio de eleição. Quando eleitos, não querem saber da polí­tica, nem olham o interesse de todos, até porque e como sabemos, uma boa parcela dos eleitos tem a mesma mentalidade do eleitor: quer aproveitar o cargo em benefí­cio próprio.

A ROUPA DO DEFUNTO

Existem estórias que parecem inventadas, feitas para nos divertir. Elas ficam mais interessantes quando descobrimos que não foram criadas, mas que aconteceram, relatadas por quem as presenciou ou vivenciou. Aqui, no blog, existem algumas destas estórias, como Isso é coisa de mulher, envolvendo uma amigo bem próximo e que, quando contada, nos fez – a todos que a ouviram – dar boas risadas. Ela não é a única, pois existem outras. Se estiver interessado, dê uma procurada no blog que irá encontrá-las.

Mas vamos voltar à  questão: Desde o ano passado estou envolvido na produção de um livro de um amigo jornalista. Ele é um dos pioneiros do radiojornalismo no Espí­rito Santo, um profissional respeitado do rádio que, hoje, não é assim tão conhecido. Na época do regime militar, ele foi um bravo defensor da liberdade de expressão, noticiando coisas que o regime não queria e buscando fazer um jornalismo sério. O livro não envolve a história do autor, mas traz uma biografia dele. Ela, no entanto, se revela quem é, não é importante para este post.

A ideia do livro é publicar uma série de textos que o autor escreveu ao longo dos anos e que não publicou. São artigos que falam das mais diversas coisas, indo do pessoal â polí­tica e, desta, para o comportamento. E é exatamente neste último que fica a estória que conta e que, em determinado momento, propus que fosse o tí­tulo do livro. Conservador, meu amigo não aceitou. Mas seria um ótimo tí­tulo, ainda acho, e é por isso que de forma resumida a vou contar. A estória é real.

Para situar a questão melhor é bom dizer que o meu amigo, profundamente religioso, costuma falar em alguns velórios e enterros, só o fazendo quando solicitado. E foi isso o que aconteceu. Na hora do enterro, o caixão foi movido para o local apropriado e, ainda descoberto, ficou sendo observado pelo coveiro. O morto estava bem vestido, de terno, e era mais ou menos do mesmo tamanho do profissional encarregado de enterrá-lo. O meu amigo falou e o enterro foi feito.

À medida que todos iam se afastando, meu amigo foi abordado pelo coveiro. Meio constrangido, falou-lhe sobre a roupa do defunto e perguntou se não a podia tomar emprestado. Surpreso, meu amigo quis saber os detalhes. O coveiro, pobre, não tinha recursos para comprar um terno e tinha, no final de semana, o casamento de um familiar. O que ele queria era tirar o terno do defunto, limpá~lo, se estivesse sujo, usá-lo e depois devolvê-lo ao legí­timo dono. O morto nada sofreria e receberia o terno de volta, com todo o cuidado.

Não sendo o “dono” do defunto, mesmo surpreso, meu amigo foi conversar com quem tinha acabado de perder um ente querido, disposto a defender o pleito do coveiro. De iní­cio, encontrou relutância, mas acabou conseguindo o empréstimo do terno. O coveiro fez exatamente o que propusera. Retirou o terno do corpo, preparou-o e o uso no casamento. Depois, voltou e o devolveu ao morto.

A propósito da estória e do livro, o tí­tulo que queria lhe dar era “O terno do defunto”. Ele sem dúvida chamaria a atenção e daria ao livro um tom de dubiedade, gerando curiosidade e levando à  sua leitura. Meu amigo não aceitou e, no final, o livro chamar-se-á “O Palácio e o Gato”, que também é interessante, mas a história da roupa do defunto continua nele e, na minha opinião, é um dos artigos mais interessantes que escreveu.

AS MUDANÇAS QUE MELHORAM

É interessante como nos acostumamos com as mudanças e muitas vezes não percebemos como elas mudaram, também, o jeito de nos relacionarmos com as coisas e com as pessoas. Veja o caso dos telefones celulares, que eram enormes, verdadeiros tijolos, e hoje, além de pequenos, transformaram-se em companhia indispensáveis para todos nós, seja em ní­vel pessoal, seja no profissional, ajudando-nos não só a comunicar, mas a guardar uma série de dados que, antes, estavam espalhados por vários locais.

Os modernos smartphones – os telefones espertos – como o iPhone, Galaxie e outros são verdadeiras plataformas de computação, oferecendo um poder que, até há pouco tempo, poucos computadores ofereciam. E são neles que colocamos todas as nossas informações essenciais, de lista de telefones e agenda a anotações, lista de coisas por fazer, etc. Temos tudo à  mão, apenas com o toque de uma tecla ou de um í­cone na tela. Não que isso nos tenha livrado do papel, pois não livrou, mas na certa, para quem usa – como eu faço – é muito mais rá¡pido, cômodo e seguro.

Mas os smartphones e os celulares, como tudo na vida, tem outro lado. E ser der problema, o que eu faço? Sabemos por experiência própria que equipamentos, sobretudo os eletrônicos, acabam falhando e, nesta hora, muitas vezes a comodidade fica de lado e chega o pesadelo. É aqui que acontecem as mudanças que melhoram, como informa o tí­tulo. Posso dar um exemplo do que acaba de ocorrer com a minha mulher. O iPhone dela deu problema, não ligava mais e ela o levou à assistência técnica, sendo informada que precisava ser substitução e que isso levaria pelo menos 15 dias.

É lógico que ela não poderia ficar duas semanas sem telefone, pois é um importante instrumento de trabalho. O que fazer, então? Simples: arranjou um modelo mais antigo do iPhone no trabalho, trouxe-o para casa e passou para ele os dados essenciais, o que usa com maior frequência no dia a dia. Com isso, continuará tendo à  mão informações que, para ela e para o seu trabalho, são importantes. E tudo isso com uma ação simples de plugar o iPhone no computador e fazer uma sincronização.

O que foi feito com o iPhone pode ser feito com qualquer outro smartphone de geração mais recente, preservando dados que para nós são essenciais. O fato é que, com as sincronizações e backups, não mais perdemos dados. Se estão no telefone, também estão guardadas no computador e/ou na nuvem, permitindo que os acessemos na hora em que precisarmos ou, então, como foi o caso de minha mulher, que os recuperemos, evitando a catástrofe de um telefone que não liga e, com isso, de perdermos todos os dados nele existentes.

A tecnologia não é boa nem má, como tem observado os filósofos, mas causam mudanças profundas na vida de todos e um dos melhores exemplos são os telefones celulares com tudo o que hoje nos oferecem. As facilidades colocadas à nossa disposição eram inconcebíveis há muito pouco tempo. Neste caso, pelo menos se olharmos o lado das facilidades oferecidas, as mudanças foram para melhor.

A VIDA EM CONDOM͍NIO

Se olharmos bem, temos de admitir que a vida humana – e todas as outras existentes na Terra – são simbióticas, pois dependem diretamente do meio em que vivem, necessitando de um ou outro elemento para a sua sobrevivência e expansão. Às vezes pensamos a simbiose apenas como a complementação de duas vidas, que podem ocupar um mesmo espaço, mas o seu conceito pode ser expandido, abrangendo a vida de um modo geral, pois é sempre dependente, não existindo somente por ela.

Nós, humanos, tornamo-nos o animal dominante no planeta e, por isso, não pensamos na dependência dos outros. Muito menos vemos o outro lado da questão, de quem depende de nós. O que me chamou a atenção para a questão foi uma matéria publicada há dias pelo jornal A Tribuna, de Vitória, falando na possibilidade de o beijo – não o de amigo, mas na boca, entre namorados – pode transmitir doenças, passando-a de um para outro através do contato e dos fluidos – que nome, hem? – que são trocados.

A informação chamava a atenção para a transmissão de bactérias que provocavam no novo hospedeiro um determinado tipo de reação. A partir daí­, mostrava como combater o problema ou, mesmo, evitá-lo, começando por evitar os próprios beijos. O que a matéria não discutiu é  que, na verdade, a vida humana é uma vida em condomínio. Nosso corpo, interna e externamente, é coabitado por bilhões de bactérias e elas, na maioria das vezes, desempenham um papel importante no funcionamento corporal.

Normalmente, não pensamos nisso e só despertamos para as bactérias, vírus, etc., quando estão associados a alguma doença, como é o caso do beijo na matéria do jornal. Só que o beijo, além do prazer que traz, é também uma ampla troca de bactérias, pois existe uma grande comunidade delas em nossas bocas, assim como no couro cabeludo, nas partes íntimas, nos pés, e vai por aí­ afora. Como somos coabitados por milhões de minúsculos “seres” que não vemos, estamos sempre recebendo alguns deles ou passando-os para outros.

Como disse, nunca pensamos nisso, mas quando vemos uma matéria falando em infecção, transmissão de doenças, somos logo atraí­dos e pensamos o que fazer pare evitar a contaminação. Vamos parar de beijar? Acho que não. Também não vamos parar de ter outros contatos, íntimos ou não, fazer sexo, abraçar. Enfim, não vamos deixar de relacionar apenas por saber – ou por propositalmente ignorar – que nossa vida é  única, mas não vivemos sozinho. Onde quer que formos, estamos levando um amplo condomínio.

Em alguns momentos, a companhia que temos e que vivem em condomínio conosco é boa. Noutras, não.

Na academia, mulheres buscam esculpir o corpo

VENDO MULHER NA INTERNET

Todos nós, desde cedo, deveríamos ter a consciência de que atividade física é essencial à  saúde, o que deveria nos levar a praticá-la. Não é assim, no entanto, que as coisas acontecem e o percentual de pessoas que pratica algum esporte ou faz outra atividade que mexa com o corpo é muito pequeno, mesmo apesar da proliferação das academias, que estão praticamente em cada esquina que se passa, indicando que há mais gente se exercitando, malhando, mas não compensando o imenso volume dos que continuam sedentários.

A questão do exercício físico e sua necessidade para a saúde surgiu, nesta semana, antes de uma reunião periódica que tenho. Nela, um dos participantes comentava problemas com seus pais e informava que, hoje, tenta ir pelo menos cinco vezes por semana à  academia, não no sentido de tornar-se um atleta, mas de garantir a saúde. Começou estimulado por sua esposa, que sempre malhou. A partir daí­, a conversa focou-se nos exercícios físicos e chegou às mulheres, que vão à  academia para esculpir o corpo e para os homens que o fazem com o mesmo sentido.

Acho que fui eu que provocou a discussão, chamando a atenção de que algumas mulheres que frequentam a mesma academia que eu malham muito forte, movimentando pesos que muitos dos homens que também a frequentam estão longe de encarar. A maioria delas é composta de jovens, mas há, também, mulheres de meia idade e um bom volume do que já poderíamos chamar de terceira idade, neste caso, significando aqueles que tem mais de 50 anos. Com o tópico levantado, a conversa continuou com o esforço que algumas mulheres fazem para esculpir o corpo, sobretudo com a malhação dos glúteos e das pernas.

Foi então que alguém observou que, na academia e fora delas, as mulheres se miram uma nas outras, vendo como estão em relação a quem está mais próximo. Primeiro, olha a bunda, vendo se está empinada e dura. Depois, as pernas, se estão torneadas e firmes. No final, comparam o corpo. É, dizia um dos participantes, a competição natural entre as mulheres, com cada uma delas querendo aparecer melhor que as outras. O que me surpreendeu foi o comentário feito em seguida: que as mulheres ficam na internet, vendo outras mulheres que malham e se comparando com elas.

Será verdade? Não sei, e não vou perguntar às minhas “colegas” de malhação. O que me ocorreu é que talvez tudo isso parta do preconceito de as mulheres se disporem, muito mais do que os homens, a frequentarem a academia, encararem pesos e malhar forte, deixando o corpo em ótima forma. Se é para mostrá-lo ou não, não interessa, o fato é que, neste departamento, são mais competitivas e determinadas que nós, homens. “Vendo mulher na internet”, neste caso, talvez não seja uma afirmação adequada, como não é adequado dizer que todos os homens que malham e esculpem o corpo tem neurônios de menos.

O exercício físico, na academia ou fora dela, é um meio, não o fim em sim. Se esquecermos disso podemos chegar, sim, ao hedonismo, cultuando o corpo e cuidado da aparência dela somente, deixando de lado o que é mais importante para todos, que é a saúde. Neste sentido, ver mulher na internet e tomar drogas para melhorar músculos, tanto no caso de mulheres como de homens, não é o caminho.

A MORTE COMO INIMIGA

Entropia não é uma palavra muito usada, mas define, de forma perfeita, o que somos – e o que também é o mundo em que estamos e que nos cerca. Uma explicação simples para ela é que tudo que começo tem um fim. Há um ciclo de vida, seja ele destinado a nós, humanos, que é muito curto, seja para um corpo celeste, como uma estrela, que é de alguns bilhões de anos, de acordo com o que nos dizem os cientistas. Nascer e morrer, assim, fazem parte deste ciclo entrópico, que nos dá um começo, mas que nos apresenta, depois, um fim.

Mas o que tudo isso tem a ver com o título? É fácil de explicar. As religiões – e vejo que uso o plural – apontam-nos ou levam-nos para um ciclo diferente do que nos oferece a entropia. Vejamos o caso dos cristãos, de quem estamos mais próximos, já que é a crença dominante no Ocidente. O que dizem – e com isso concordam, também, os muçulmanos e budistas – que a morte não é o fim de tudo, mas o início de uma nova vida, que seria, dependendo de como nos portarmos, muito melhor e eterna. O que a crença nos oferece, no caso das trás maiores religiões monoteístas – cristianismo, islamismo e judaísmo – e uma politeísta – budismo – é que não morremos, apenas passamos a outro plano.

A religião, neste caso, nos oferece a possibilidade de transformar algo finito em uma coisa infinita, já que a vida após a vida, é eterna. Podemos viver no paraí­so cristão, no nirvana budista ou é no paraí­so islâmico, cercado de belas mulheres, mas estamos, em todos estes casos – e também no de outras religiões – superando a morte, contornado a entropia e deixando algo que iniciou – a vida – sem fim – a morte. Mas o fato de a crença nos remeter a uma vida futura, melhor que a que temos, não transforma a morte em inimiga, ou transforma?

Se deixarmos o lado religioso e olharmos a questão pelo lado cientifico, a explicação que temos, de forma bem simplificada, é que morrer é o medo final dos humanos. Sabemos, de antemão, que um dia estaremos diante dela e não temos como supera¡-la ou contorna¡-la, pelo menos não do lado físico. Então, procuramos superá-la usando o espiritual e concebendo um mundo pós-morte, onde recebemos todas as recompensas pelo que passamos na vida, pelo que sofremos, pelo que sacrifiquemos. A promessa, no entanto, exige que, na vida, aceitemos regras, prestemos homenagens e nos subjuguemos às regras que as religiões nos impõem. Só cumprindo-as é que conseguiremos a recompensa.

O sentido físico da morte, então, transforma-se em sentido figurado e ela só será nossa inimiga, de verdade, se não professarmos a fé, não acreditarmos em uma deidade e não cumprirmos o que dizem suas escrituras, ensinamentos ou pregações. Subsumindo-nos a algo maior, praticando o que recomendou e seguindo as regras, acabamos vencendo a última e mais impiedosa das inimigas do ser humano, a morte. Afinal, como todos  sabemos, ela é o fim de tudo, pelo menos do lado físico da questão. Olhando do viés religioso, a morte é, de modo efetivo, uma inimiga, que só podemos vencer superando nossas fraquezas, reconhecendo nossos erros, portando-nos de forma correta para, no final, conseguirmos a recompensa maior, que é superá-la e ao termino do que somos.

Sem dúvida, para os que creem, é um conforto.

Pesquisa mostra aumento da leitura de livros no Brasil

NÚMERO BOM E MUITO ANIMADOR

A minha paixão pela leitura começou muito cedo, lendo as revistas que minha mãe comprava e, depois, algumas publicações que eram destinadas às crianças, como o Almanaque do Tico Tico, de que ainda hoje tenho um exemplar. A partir daí, chegar aos livros foi um caminho natural. Ainda adolescente li alguns clássicos da literatura brasileira e outros grandes sucessos internacionais, como Êxodus, de Leon Uris, que fui reler e entender quando me tornei adulto. O mundo relatado por Uris, na primeira leitura, era pura fantasia para o garoto do interior, interessado em descobrir o que o mundo tinha, de verdade.

Desde então, nunca abandonei os livros e eles sempre estiveram do meu lado. Talvez por isso sempre achava desanimador o panorama de leitura no Brasil. Um país continental como o nosso, em determinada época, tinha menos livrarias que Buenos Aires, na Argentina. Hoje, pelo menos a se acreditar em pesquisa feita pelo IBOPE e recentemente divulgada, o panorama é bem outro. Segundo o Instituto, um em cada três brasileiros leu pelo menos um livro nos últimos 30 dias. Este, no entanto, não é o melhor da informação, pois a pesquisa constatou que 53% leem com frequência. O número, no meu entender, é muito bom e, ao mesmo tempo, muito animador.

Sempre que se fala em livros no Brasil, o que se diz é que, primeiro, é um produto caro e, depois, que o brasileiro lê pouco. Forma-se um circulo vicioso: lê-se pouco porque o livro é caro e ele é caro pelo baixo volume de leitura. Os números do IBOPE estão desmentindo esta velha percepção, mostrando – acredito que sejam corretos – que o Brasil mudou e, com ele, os brasileiros, com a leitura fazendo parte da rotina de muita gente. Quando se trata de leitura, a educação faz milagre e, embora ainda estejamos bem longo do necessário, o nível educacional no Brasil melhorou a partir do Governo Fernando Henrique Cardoso, não há¡ nenhuma dúvida em relação a isso.

Se o país não tem – como não tinha – um grande volume de livrarias, o que vemos em shoppings são que elas estão sempre cheias e uma das coisas animadoras que vejo são jovens procurando livros, comentando outros, dizendo que um é bom e o recomendando a outro colega. Tenho visto isto com frequência, já¡ que sou, também, um frequentador assíduo de livrarias. O que se pode questionar, no caso da leitura, é a qualidade dela. Se olharmos, o que é mais vendido – e, por conseguinte, pressupõe-se que mais lido – são os best-sellers, livros que muitas vezes estão associados a filmes, a sequências que fizeram sucesso, como Harry Poter.

Podemos, efetivamente, ter um problema de qualidade. Mas é animador, como já¡ afirmei, ver que o índice de leitura está¡ aumentando. Tomado o gosto – como aconteceu comigo – é muito difícil largar o hábito e, acho, o caminho natural é que se passe dos best-sellers para livros mais consistentes. Mais do que uma certeza, é uma esperança.

A TECNOLOGIA QUE NOS FAZ GORDOS

Fazendo uma limpeza das caixas de emails, acabei me deparando com uma matéria publicada pela Wired retratando pesquisa feita pelo Milken Institute, dos Estados Unidos, mostrando que a tecnologia, de um modo geral, é um dos principais fatores para que o mundo torne-se, a cada dia, mais gordo, com o percentual de obesos chegando a bilhões de pessoas e transformando a obesidade em um dos maiores problemas de saúde pública, de acordo com os especialistas.

Mas o que nos levou a isso? Um dos problemas apontados pelo Instituto é o da “comida processada”, que tem de ser produzida em grande quantidade e preservada para atender o consumo humano. Ao lado dos nutrientes necessários à  manutenção do corpo saudável, ela acrescenta uma série de componentes químicos que acabam contribuindo, necessários para a sua conservação, mas que afetam diretamente os humanos. Além do mais, como está à  mão, o seu consumo é mais fácil e, com isso, as pessoas acabam comendo maiores quantidades, reforçando a tendência à obesidade.

Entupidos de comida, nos sentamos diante da televisão e lá ficamos. Antes, tínhamos de levantar para mudar de canal. Hoje, o controle remoto faz tudo, com a tecnologia nos tirando um dos poucos movimentos que fazíamos dentro de casa. O controle remoto é apenas um pequeno exemplo das comodidades que a tecnologia nos trouxe, indo dos transportes à vida diária, o que foi tornando a cada dia mais sedentários, ficando horas e horas sentados, sem nenhum esforço a não ser apertar uma tecla de computador ou o comando de um controle remoto ou usar outro objeto para tarefas do dia a dia, facilitando – pelo menos em termos – a vida de todos nós.

Imagine o princípio da humanidade. Cada um tinha de lutar para conseguir sobreviver e uma das formas de fazê-lo era caçando, correndo atrás de animais que eram mortos para fornecer o sustento necessário a uma pessoa, família ou comunidade. Hoje, o máximo que fazemos é entrar em um supermercado onde tudo está à disposição. Andamos alguns minutos e saímos com tudo o que nos é necessário, além, é lógico, com todas as guloseimas que nos ajudam a engordar. Não há mais esforço para conseguir comida e isso devemos à tecnologia, que a colocou ao nosso dispor.

O mesmo se dá com a locomoção. Quando comecei minha vida de trabalho, saltava do ônibus e para chegar em casa andava quase dois quilômetros. E fazia este mesmo percurso todos os dias para ir para o trabalho. Para chegar a ele, também andava bastante. Hoje, saio de casa, desço à  garagem, pego o carro e me desloco. Chegando, estaciono na garagem do prédio onde tenho escritório e subo pelo elevador. De cada ao trabalho, o esforço é mínimo e o que eu ando – assim como uma grande parcela da população – é mínimo. Se contar da saída de casa à chegada ao escritório não caminho, na verdade, nem 200 metros. Muito menos do que os dois quilômetros do início da vida profissional.

Aqui temos trás exemplos – comida, televisão e deslocamento para o trabalho – mas se formos olhar veremos que em todos os campos temos a presença da tecnologia e ela é usada, quase sempre, no sentido de facilitar a vida das pessoas, impondo-lhes menor carga de trabalho, encurtando distâncias, facilitando tarefas e, com isso, nos tornando a cada dia mais estáticos. Sem gastar o que consumimos, o resultado é a obesidade, uma endemia que ocorre mesmo nos países mais pobres. O caminho a percorrer é o do movimento, conscientizando-nos que devemos usar a tecnologia a nosso favor, mas é preciso, também, que olhemos como ela pode nos ajudar na saúde, criando estímulos para que, se não imitemos nossos antepassados, pelo menos criemos a consciência de que precisamos nos movimentar.

A tecnologia, de verdade, está¡ nos tornando mais gordos. E para constatarmos isso basta que olhemos em volta de nós. As evidências estão nos corpos.

ALIENS E O MEDO DO DESCONHECIDOS

Sou aficcionado da ficção científica, principalmente dos livros que criam novos mundos, vindos inteiramente da imaginação, ou que usam uma temática mais psicológica para discutir as relações dos humanos com os “aliens”, que em muitos poucos casos são apresentados como amigáveis, dispostos a conviver com a raça humana sem problemas. No mais das vezes – pelo menos no que li – há sempre uma disputa e os humanos estão sempre tentando evitar uma dominação. É o caso dos dois últimos livros que li. Ambos falam da relação dos humanos com aliens e da luta para evitar que tomem a Terra ou a destruam.

A luta com aliens vem ao encontro do que vemos no noticiário quando se trata de OVNIs e outros objetos, comumente chamados de “discos voadores” que, pretensamente, visitam a Terra. Os relatos são, quase sempre, de atitudes hostis, com sequestros, abdução e experimentos, com quem é “sequestrado” ficando marcado para o resto da vida. Aqui, de certa forma, ficção se encontra com os relatos das aparições e, os dois, nos dão um relance de como nós nos relacionamos com o desconhecido, com o que não convivemos. O que a ficção faz, na verdade, é explorar o medo humano do que não conhece e, a partir dele, construir cenários de embate entre raças opostas.

Não gostamos de mudança. E também não gostamos de enfrentar o que não conhecemos. Defrontar-se, mesmo que na ficção com algo que é uma possibilidade, que é o encontro de outra inteligência, nos deixa temerosos. Os autores, conhecedores deste temor, exploram o lado psicológico que gera o desconhecido e, a partir dele, constroem cenários onde os aliens estão sempre querendo dominar a Terra, destruir ou escravizar os humanos. E o que fazemos? Normalmente, agimos como sempre: contra-atacamos e destruíamos o inimigo. A ficção está cheia deste tipo de conflito e, aqui, não é apenas a ficção científica.

A ficção, se sonha com mundos diferentes, com aliens que nos encontram ou que encontramos, não foge muito do que acontece na Terra, na vida real. O desconhecido sempre traz insegurança, o que alguns superam, mas outros, não. Se este desconhecido traz, também, mudança, as coisas ficam ainda piores, pois não gostamos, nada mesmo, de sair de nossas zonas de conforto, repetindo o que fazemos e nos movimentando em um ambiente que conhecemos. Um pequeno exemplo pode ser dado com a simples mudança de emprego. Por mais que sejamos confiantes, sempre guardamos algum temor e o que gera é o fato de sairmos da zona de conforto e enfrentar algo que ainda não conhecemos.

A ficção científica, ao contrário do que muitos pensam e afirmam, guarda, sim, relacionamento direto com a realidade. É dela que o autor parte para construir o seu cenário, estabelecer a trama e explorar os sentimentos humanos. Os personagens agem, então, como agiriam as pessoas na vida real. Pode ser até que haja exageros – e eles existem, mesmo – mas o certo é que, se olharmos a ficção científica do lado psicológico, veremos que ela representa os humanos como são e é explorando seus medos, temores, guerras, relacionamentos é discutem as questões que nos afetam.

A ficção, no final, é apenas um cenário para discutir as coisas humanas. E uma das principais, sem dúvida, é o medo do desconhecido, o desconforto que uma situação nova nos traz.

CUIDANDO DA LATARIA E DO MOTOR

Muitas vezes uma boa analogia explica tudo. O corpo humano, como todos sabemos, funciona como uma máquina. Para que tudo ande certo é preciso que todas as partes funcionem bem e em sintonia. Com isso, sentimo-nos saudáveis e a vida fica mais fácil. E tal como uma máquina, o corpo humano também sofre desgastes, precisa de manutenção, de cuidados que o levem a funcionar sempre bem, levando-os de um para outro lado e permitindo que façamos o que devemos fazer. Podemos dizer que, analogicamente com o carro, nossa pele é a lataria e o interior do corpo, o motor que impulsiona tudo.

É claro que um carro, alias como o próprio corpo humano, é muito mais que lataria e motor. Em um e no outro existem centenas de peças diferentes, de grandes aos pequenos componentes que, juntos, fazem com que os dois organismos (?) funcionem. Se no carro um relê falha, ele pode parar. O mesmo acontece com o corpo humano, onde uma pequena falha pode provocar problemas grandes. Por isso é preciso sempre cuidado, olhando o funcionamento e vendo o que é preciso ser reparado ou substituído, no caso do carro, ou cuidado, no caso do corpo humano. Para efeito de comparação, a analogia está¡ construída e, tal como fazemos com o carro, é preciso, no caso de nosso corpo, cuidar da lataria e do motor.

Mas qual o sentido de tudo isso? O fato é que, nos últimos tempos, tenho recorrido com mais frequência aos médicos, o mesmo ocorrendo com minha mulher. À medida que a idade avança, vamos descobrindo problemas para os quais nunca tínhamos atentado, o que nos leva a novos exames, novos olhares médicos e, como consequência, novos comportamentos, incluindo, quando é o caso, trabalho físico, tanto de fisioterapia, quando de outra movimentação, como na academia ou em caminhadas. Não estamos doentes, nenhum de nós, mas, ao contrário de antes, precisamos tomar mais cuidados com o corpo, com o que fazemos, como fazemos, com o que comemos, etc.. É normal.

Pois foi a partir desse novo comportamento, de maior preocupação com o físico, que demanda, às vezes, cuidados especializados que, um dia desses, conversando com minha mulher, ela surgiu com a história da lataria e do motor. Muito bem humorada – como sempre – ela construiu a analogia, lembrando que, no nosso caso, estávamos chegando a uma fase que é preciso ter cuidado tanto com a lataria quando com o motor. E é isso que vimos fazendo, não de agora, mas de há algum tempo, preocupando-nos com a boa alimentação, vida saudável, exercícios, etc. O que é feito tem o objetivo da prevenção, alias e de novo, como a manutenção preventiva que fazemos nos nossos veículos.

Acho que a analogia serve, perfeitamente, para a situação. Os cuidados com a prevenção, alias, devem ser uma preocupação de todos e quanto mais cedo começarem, melhores serão as condições de vida das pessoas. Viver saudavelmente é sempre uma ótima opção.