MÍDIA, JORNAIS E JORNALISMO

Sou, como todos os que aqui frequentam sabem, um velho jornalista. Vive vários anos dentro de redações e, nelas, exercendo várias funções. Há algum tempo, deixei-as, mas minha principal atividade continua ligada ao jornalismo, já que voltei a minha especialidade para o atendimento de quem deseja comunicar-se, mediante o uso de mídia espontânea. Então, é mais do que natural que o futuro do jornalismo seja uma das minhas preocupações.

Este, por sinal, é um assunto recorrente neste espaço, com vários artigos que falam do assunto – o último deles Pensando o impensável. Por que a volta ao tema? Nestes dias estive pensando na questão e me ocorreu se, de um lado, há uma ameaça efetiva à mídia impressa, como a conhecemos, não há, de verdade, uma ameaça ao jornalismo e ao jornalista. Estamos, sim, diante de uma profunda mudança no que é a profissão e o meio de exercê-la, mas o jornalismo e os jornalistas irão permanecer.

O que está mudando – e isso o Clay Shirky deixa muito claro – é o meio, a forma de se publicar notícias, informações. Estamos, no meu entendimento, chegando ao fim da fórmula em que o jornalista decidia o que o leitor iria ler, partindo de um pressuposto que o estava atendendo e às suas expectativas. Havia – e ainda há – no jornalismo uma via de uma só mão, com o profissional assumindo a visão de quem lê e, a partir dessa assunção, determinando o que será ou não publicado. É o que os teóricos do jornalismo chamam de gatekeeper – quem faz o filtro do que será efetivamente publicado.

Ainda continua sendo assim nos jornais, nas revistas, no rádio e na televisão. Os jornalistas selecionam o que, no entender deles, deve ser servido ao seu leitor, ouvinte, telespectador. Talvez ainda seja um pouco assim na internet, mas devido à proliferação de blogs e sites noticiosos, os filtros estão cada vez menores. Criamos, já, o conceito de nicho, com o internauta buscando exatamente o que lhe interessa, lendo o que desperta sua curiosidade e, com isso, criando um novo meio de informação, que combina a notícia – e nela, a opinião – com a participação, sobretudo mediante comentários.

As cartas aos leitores, uma das formas de as publicações impressas tomarem pulso do que acham quem consome o que publica, foram maximizadas. E a informação deixou de ter o aspecto direto. Nela, está embutida a opinião – que é clara – de quem escreve, o seu ponto de vista, a apreciação sobre o fato, não ele, simplesmente, como pretendiam os velhos jornalistas. Jornalismo transformou-se, neste caso, em dar uma informação e, ao mesmo tempo, comentá-la, colocando-a sob um determinado àngulo e ponto de vista.

Há, ainda, um outro aspecto, que é o grau de importância de um determinado fato. A mídia impressa – e com ela a televisão e o rádio – estima que uma determinada informação deva ter destaque a partir do interesse público. Na internet esta lógica persiste, mas há, também, uma outra, que trata tudo como informação que pode e deve ser publicada. Os filtros são muito menores e a possibilidade de ampliação do universo da informação, muito maior. Criam-se, com isso, os nichos, com sites especializando-se em um determinado tipo de informação e com blogueiros falando sobre os mais variados assuntos e tendo audiência para o que falam.

Repetimos, no jornalismo, a teoria da cauda longa – ou talvez a repetição do 80/20 – em que se cria uma cultura de nicho, alongando a cauda, que sai do mainstream para o que poderíamos chamar de subúrbio da informação. Como observa Chris Anderson no seu livro, a parcela da longa causa é, no final, bastante expressiva e dela tem se valido negócios de sucesso. O que vemos é a mídia impressa encolhendo, perdendo vigor e o nicho informacional da internet se ampliando. Estamos mudando de meio, não há nenhuma dúvida.

Com esta mudança, muda também a postura do jornalista. A profissão, não tenho dúvida, irá continuar. O jornalismo, também. Quando as publicações, a se crer em experiências passadas, elas irão mudar, também. Podem até sobreviver, mas não serão, em nenhum aspecto, o que são hoje.

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