Trump e o retorno ao passado: a volta da história

TRUMP E O RETORNO AO PASSADO

As ações do presidente Donald Trump configuram uma tentativa de volta ao passado, virando o rumo da história. Mas o que a própria história mostra é que o novo sempre supera o velho. Ao manter-se no velho, quem nele fica, olha para trás e perde o futuro.

“Tão antigo quanto andar para a frente”.

O ditado popular brasileiro se aplica de modo perfeito às ações que o presidente Donald Trump, dos Estados Unidos, está tomando em vários setores, que vão da saúde ao meio ambiente e, dele, para políticas industriais e científicas. O que estas ações mostram é que as decisões tomadas remetem, todas elas, ao passado, como se estivessem querendo fazer a história regredir, readotando procedimentos e políticas antigas que, há muito, foram superadas.

O que está sendo feito traz uma justificativa que, se olhada a história, não se sustenta, que é o discurso de os Estados Unidos serem prejudicados por outros países e por governantes anteriores, que adotaram políticas com as quais Trump e seus apoiadores não concordam, como é o caso da readoção do carvão como combustível e da suspensão de investimentos em energia limpa. Neste último caso, vem junto a negação da crise climática.

Ao lado do retrocesso interno, a administração Trump passou a culpar os outros países, sobretudo a China, por seus problemas. Para ele, os EUA estavam sendo explorados e é por isso que impôs tarifas em importações, encarecendo produtos e insumos, o que, dizem os economistas, irá refletir na economia do país. O que Trump fez foi adotar um discurso de soberania que questiona regras estabelecidas coletivamente. Para críticos, esse movimento limita a capacidade de Washington de influenciar decisões globais justamente quando outras potências buscam ocupar esse espaço.

No campo econômico, a ação de Trump equivale a colocar uma cerca em torno dos Estados Unidos, impedindo que ele seja “invadido” por quem é de fora e que, no pensamento dele, não tem nada a ver com a grandeza do país que preside. O que prega é a devolução dessa grandeza, ameaçada pela China, o “inimigo” dos Estados Unidos e considerada a maior ameaça para a ainda mantida hegemonia que o país exerce no mundo.

Querendo conter a China, as ações do presidente Trump pretendem ter o controle de cadeias produtivas estratégicas, o domínio de tecnologias avançadas e a definição de padrões industriais. Um dos reflexos é a exigência de as empresas produzirem no país, cortando os laços com o que vêm fazendo há muitos anos: usando a China para produzir o que vendem, cuidando apenas do seu desenho e da comercialização, quando prontos.

Especialistas apontam que, se é um desejo, este tipo de ação só é realizável a médio e longo prazos. Não há como, de um para outro dia, mudar a fabricação de equipamentos complexos. Construir fábricas leva tempo e muito investimento. Um bom exemplo, neste caso, são os automóveis elétricos. Trump praticamente paralisou sua produção nos Estados Unidos enquanto a China acelera sua fabricação e, hoje, domina o setor. O presidente da Ford reconheceu que, no atual estágio, não há como competir com os carros elétricos chineses.

A volta ao passado não se refere apenas à produção de veículos elétricos ou à energia limpa, mas abrange praticamente todas as ações tomadas pelo governo Trump. Podem ser alinhadas medidas como o corte de verbas para pesquisa e a suspensão de políticas públicas que afetam diretamente os mais pobres, que hoje somam mais de 40 milhões de cidadãos do país à beira da fome. Se olhadas em conjunto, o que as ações de Trump vão provocar é a perda da competitividade dos Estados Unidos.

Se ele está querendo fazer a história voltar, fora a Europa, a China e outros países da Ásia e da África estão se movendo adiante, adotando novas tecnologias, trabalhando para conter a mudança climática e investindo em inovação. A história mostra, de forma clara, que novas tecnologias sempre acabam superando as antigas. É só olhar ao longo dela e constatar o que é óbvio: o novo sempre substitui o velho. Até agora, as ações tomadas pelo presidente Donald Trump vão, todas elas, de encontro à inovação. Os países estão olhando à frente, adotando práticas que beneficiem seus cidadãos. Mas não só isso. Novas tecnologias melhoram a produção, diminuem seus custos e os tornam mais competitivos no mercado mundial. Não há – e a história comprova – como fazer a roda voltar, adotando-se técnicas e políticas do passado.

O que o conjunto das escolhas feitas pelo presidente Trump aponta é para uma clara tentativa de resgatar modelos econômicos, energéticos e políticos que, há tempo, já demonstraram seus limites. Eles já foram parcial ou totalmente abandonados em outros países e em outras regiões. O exemplo mais claro vem do maior inimigo de Trump, a China, que avança em ritmo acelerado, usando as novas tecnologias em seu benefício e de sua população.

O que pode acontecer com os Estados Unidos com a adoção deste caminho? Especialistas convergem para apontar que, no curto prazo, podem gerar dividendos políticos internos. No longo prazo, porém, os custos tendem a ser elevados: perda de influência internacional, atraso em áreas tecnológicas estratégicas e aumento das tensões com outras potências. Hoje, uma das evidências dessa perda é o recente acordo do Mercosul com o Mercado Comum Europeu, que tangencia os Estados Unidos e abre mercado para duas regiões que, com isso, fogem à sua influência, passando a depender menos do comércio bilateral.

No final, as políticas adotadas pelo presidente Donald Trump configuram o desejo de uma volta ao passado, quando as palavras dos Estados Unidos eram ouvidas e acatadas. Hoje, graças a uma maior cooperação internacional, já não é assim. Os Estados Unidos já não são o “império” de ontem. Seu poder está se esgarçando e as políticas adotadas por Trump vão acelerar esse esgarçamento, o que, como a história novamente mostra, pode acelerar a perda de dominância e, como na natureza não há vácuo, o mais provável é que a China, que já está bem perto, assuma o lugar.

As políticas de Trump, que levam à fragmentação de um modelo, representam um risco para os Estados Unidos, que é ficar à margem de transformações que já estão em curso no restante do mundo e estão sendo aceleradas. É o claro caso de “tão antigo quanto andar para a frente”. Ao mudar o passo e querer deter a inovação, as políticas atualmente adotadas pelos Estados Unidos podem levá-lo à perda do compasso.

As ações do presidente Donald Trump levam à desconfiança. Ao centrar-se no próprio umbigo, deixando de lado o resto do mundo, tratando outras nações como vassalas ao mesmo tempo que quer parar o progresso, ele está fazendo uma curva na história, apontando-a para o passado. Aparentemente, ele não aprendeu o que a história ensina.

O mundo vai continuar andando para a frente. Os Estados Unidos ficarão ainda mais para trás.

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