UM NOVO TIPO DE GUERRA

Há poucos dias o noticiário sobre tecnologia e internet trazia o anúncio de um ataque ao Google na China. O Governo chinês foi acusado de ter participado ou incentivado esta ação, o que ele, obviamente, negou. O fato é que os chamados ciberataques estão em moda e ocorrem em todas as partes do mundo, dele não escapando empresas, governos ou outras instituições. Com isso, a segurança na internet tornou-se um mantra que todos repetem, sempre buscando uma forma de prevenir este tipo de ataque.

O jogo de gato e rato protagonizado, de um lado, por quem cuida da segurança dos sites, e do outro por hackers, continua e não é novo. No Campus Party, em São Paulo, um dos mais afamados hackers, Kevin Mitinik chamou a atenção para as falhas de todos os programas que usamos. Aparentemente, a questão é muito mais séria, capaz de levar o Secretário Geral da União Internacional de Telecomunicações, Hamadoun Touré, a falar em “guerra eletrônica” ou ciberguerra. Em nome do organismo da ONU que dirige, defende que se tomem medidas para evitar a ação de hackers e diz que isso tem de ser feito para impedir uma verdadeira guerra cibernética.

A posição de Touré chama a atenção para algo que ocorre em silêncio mas que é muito, muito assustador, que poderíamos chamar de monitoramento da internet, se quisermos um eufemismo, ou mais propriamente de ações diretas de espionagem, contraespionagem, roubo de dados e muito mais. Nos dois primeiros campos estão não só empresas privadas que querem saber o que acontece com seus concorrentes, mas também e principalmente os Governos, notadamente dos Estados Unidos. No segundo, o de roubo de dados, milhares de hackers de todo o mundo. Aqui, o espírito é de pirataria ou visto como diversão, um desafio que alguém quer vencer e mostrar que é possível burlar a melhor segurança.

O temor de Hamadoun Touré encontrou eco em Davos com a revelação de Dave DeWalt, da McAfee: “China, Estados Unidos e Rússia fazem parte dos 20 países que estão envolvidos em uma corrida armamentista no ciberespaço e que se preparam para posáveis hostilidades via internet”. A postura passou de defensiva para ofensiva e a própria McAfee já identificou o que chama de “ciber armas” em alguns países. Neste contexto, o episódio de invasão do Google nos mostra uma ponta do iceberg que é a “guerra” em torno da internet, o que dá razão a Touré quando pede um tratado mundial que regule a grande rede, evitando talvez uma “guerra mundial cibernética”.

Com a vida mais e mais dependendo da internet, fica difícil pensar que, ao abrir o navegador e procurar um site, estamos indiretamente envolvidos em uma guerra surda, não só pelo controle do que acontece na rede, mas e sobretudo para evitar que determinados dados acabem sendo adquiridos. O que é, aparentemente, uma grande e livre comunidade, com informações para todos e sobre tudo, também tem o seu lado obscuro. E é ele, a se acreditar em Touré e DeWalt, que pode nos levar a um novo Neuromancer, criando piratas de dados que trabalhem para grandes organizações e tornando a internet uma terra de ninguém, onde nada mais será seguro.

Será que chegaremos a isso?

RECOMENDAÇÃO DE LEITURA

Se você gosta de temas regionais, de uma boa narração e está disposto a encarar cerca de 500 páginas, tenho uma indicação: A constureira e o cangaceiro, de autoria de Frances de Ponte Peebles, uma brasileira filha de mãe brasileira e pai americano. O livro foi publicado originalmente em inglês e só depois traduzido para o português. A escolha da língua, segundo Frances disse no GloboNews, se deu por ela achar que domina melhor a língua de Tio Sam do que a de Rui Barbosa.

Como o título diz, o livro conta a história da costureira e do cangaceiro. Mas não fica só nisso, não. Fala da seca no Nordeste, da exploração do nordestino, da pouca importância que lhe dão os governantes e acaba, com tudo isso, construindo uma bela história, que nos cativa e nos faz querer saber mais. Decididamente, uma ótima leitura.

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