Cabe à política ver e realizar o que o povo quer

O PAPEL CENTRAL DA POLÍTICA

Um dos aspectos marcantes das enormes manifestações feitas no Brasil nos últimos dias é a desconexão com os políticos, que são criticados e colocados de lado, havendo uma separação nítida, que exclui os partidos e aqueles que estão engajados neles. O que vemos é uma tentativa de exclusão da política na resolução dos inúmeros problemas que o país tem e uma tentativa de, manifestando a insatisfação, que é geral, se consiga mudar, modificando o comportamento dos políticos e, com isso reformando a política.

O que ocorreu nos últimos tempos é que, a cada dia, os políticos ficaram mais desconectados do povo, de seus anseios. A política passou a ser feita não em benefício da maioria, mas no do próprio político e daqueles que a ele são próximos, provocando a desconexão com os reais anseios da população: melhor transporte, mais educação, melhor assistência à saúde e segurança. Uma boa mostra desta desconexão é a criação de várias “bolsas”, que beneficiam segmentos, mas não resolvem as questões básicas do país.

Há, ainda, outro fato marcante que pode ser observado, que é a ausência de uma liderança, já que as manifestações surgem de mobilizações horizontais, com o uso massivo da mídia social que, por sua própria característica, não tem centro. Quem parece entender isso é a ex-Senadora Marina Silva, que em um belo artigo para a Folha de S. Paulo apontou esta desconexão. Se não há líderes, não há quem ouvir, com quem dialogar. O que a manifestação aponta, no entanto, não é a construção de novas lideranças, mas o desejo de mudança, de que o país tome novos rumos, que as coisas aconteçam de modo diferente. Perplexos, os políticos não sabem o que fazer, começando na Presidente Dilma Roussef e chegando ao Vereador, mais ligado à comunidade que, pensa, representa.

Será que para entender a situação é preciso acabar com os partidos, como sugere o Senador Cristóvam Buarque? Em uma democracia, que é sempre formal, os partidos devem ser o canal que leva o desejo da população ao poder, conformando-o e devolvendo em ação aquilo que o eleitor pede e quer e, ao mesmo tempo, enquadrando dentro das possibilidades de orçamento e levando em consideração o que é melhor para a maioria. Como sabemos, nunca é possível atender a todos.

No Brasil, este comportamento partidário deixou de existir há muito tempo e é esta desconexão entre eleito e eleitor que está evidente agora. Os políticos, tem se gritado a toda altura nas manifestações, não representam a população. Se isso é verdade – e acredito que seja – quem é que eles estão representando? Do ponto de vista político, esta é a questão fundamental a ser respondida. Do lado da população a resposta está clara: ela não se sente representada. E pior, mostra-se completamente decepcionada com o que está sendo feito que, na verdade, está na contramão do seu desejo.

Um mostra clara disso são as críticas aos gastos com a Copa do Mundo. Em um país onde o futebol é o “esporte das multidões”, assunto quase obrigatório em todos os segmentos, critica-se os gastos com a competição, fruto do investimento de mais de R$ 33 bilhões. Se aplicado na saúde, este dinheiro resolveria muitos problemas e a população seria melhor atendida. O que fica claro, no final, é que a população, que à primeira vista parece despolitizada, tem informações e sabe o que está sendo feito, que não é sua prioridade.

As ruas falaram e, em muitos casos, os políticos parecem que não ouvem, que são surdos. Poucas vozes, até agora, ousaram analisar e interpretar a insatisfação instalada no Brasil. Descobriram, de repente, que não representam quem achavam que representavam e que estão na contramão do que a sociedade deseja. As manifestações mostraram claramente que a população deseja um novo caminho e, ao construí-lo, a política será essencial, sobretudo por vivermos em uma democracia e em um regime representativo.

Políticos são descartáveis, podendo ser eleitos ou derrotados. A política, não. Ela é essencial, já que é através dela que se fará as mudanças pedidas pela sociedade. As manifestações, no meu entender, são a prevalência da política sobre os políticos. Ao ir às ruas os manifestantes tomaram, de forma clara, uma posição política e ela indica que a sociedade deseja mudanças. O fato de se caracterizarem como apartidárias e repudiarem os políticos, não tira delas o aspecto visceralmente político do que está sendo feito. A sociedade fez uma declaração clara de intenções, pedindo mudanças, mas elas só irão ocorrer se houver ação política. E isso as ruas não podem fazer.

Cabe aos políticos ouvir a voz do povo e, a partir dela, implementar as mudanças pedidas. Ou, então, irem para o oblívio.

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