DESCULPA PARA FICAR À TOA

O trabalho, dizem muitos, enobrece. Só que agora e a partir de uma pesquisa cuja divulgação acho ter passado despercebida constatamos que o trabalho também enlouquece. Pelo menos é o que afirma a BBC Brasil a partir de um estudo conduzido por cientistas finlandeses. Segundo disseram, o excesso de trabalho pode aumentar o risco de declínio mental e possivelmente de demência.

Mas como os cientistas chegaram a esta conclusão? A informação diz que eles analisaram mais de 2 mil funcionários públicos britânicos e descobriram, ao final, que quem trabalhava mais de 55 horas semanais tinha menos habilidade mental do que quem trabalhava menos. E estes problemas iam de memória de curto prazo à lembrança de palavras. Mas se os cientistas descobriram que trabalhar de mais faz mal, não sabem, ainda, o porque disso.

O que sabem é que o trabalho além do horário convencional, dentre outras coisas, pode provocar a perda de sono, depressão, aumento do risco de doenças cardiovasculares e levar a um estilo de vida prejudicial à saúde, além, é claro, do stress acumulado pelo tempo a mais nas mesmas atividades. Ah, e segundo os cientistas, quem trabalha mais também bebe mais.

Se, de um lado, chama a atenção para um problema cada vez mais comum, que é o excesso de trabalho, de outro o estudo, chega em um momento em que este excesso está quase que normalizado. Afinal, em tempos difíceis, o que um trabalhador pode fazer para manter o seu emprego, faz. E trabalhar um tempo a mais é uma das coisas que certamente aceitaria sem discutir ou reclamar, pensando que é melhor alongar o trabalho do que não ter nada para fazer. E como consequência, não ter um contracheque no final do mês.

E é exatamente este o aspecto destacado por um dos pesquisadores: “Mas a minha preocupação é que em uma recessão as pessoas trabalhem mais. (…) As pessoas irão para o trabalho mesmo se estiverem doentes, pois querem mostrar comprometimento e garantir que não sejam os próximos funcionários demitidos”.

Em circunstâncias normais – e não é, definitivamente o que estamos hoje vivenciando – a pesquisa daria ao trabalhador um escudo para recusar uma tarefa que prolongaria o seu horário ou, até, uma bela desculpa para ficar à toa. Afinal, pode argumentar com base científica que o trabalho de mais não só não enobrece como causa problemas. Em tempos difíceis, no entanto, quem é que vai se recusar a estender sua jornada?

Em tempos de crise ter e manter um trabalho pode ajudar. Mas não custa deixar anotado que estudos científicos mostram que trabalhar de mais pode causar problema. E em um futuro próximo o estudo pode servir de referencial na hora de se discutir salários e jornadas de trabalho com os patrões, mostrando-lhes que, no caso do trabalhador, menos pode significar mais.

O estudo pode, também e no final, ser usado como escusa para não se trabalhar. Se a ciência diz, pode se argumentar, então vamos usá-la em nosso favor e trabalhar menos. (Via N U D)

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