DANDO ASAS À MINHA IMAGINAÇÃO

Sempre que me penso com mais idade, vejo meu avô´.

Este foi o primeiro parágrafo de um texto que escrevi em 2006 e que está publicado aqui, no blog. Parte de uma blogagem coletiva, o objetivo era falar de você e, ao fazê-lo, optei por lembrar-se do meu avô, que também era meu padrinho de batismo. Sua história é um exemplo. Agricultor, ele criou, primeiro, uma família de 10 filhos, encaminhando-os e depois assumiu a responsabilidade de ajudar a criar a família de um tio, também bastante numerosa. Ao término desta tarefa que se impôs, ele começou a fazer o que gostava e que, nas suas idas e vindas e nas histórias que contava, deu asas à minha imaginação.

Padrinho, como eu o chamava, tinha familiares em várias cidades de vários Estados brasileiros, fruto da família grande e de outras ligações familiares, com sobrinhos, primos, etc. Com isso, podia se movimentar de um para outro lado, sempre tendo um lugar onde era bem recebido. A constante é que, onde chegava, era disputado, pois todos o queriam por perto. Como criança, tive o privilégio de tê-lo em nossa casa por bons pedaços de tempo e era nestas paradas que ele se sentava comigo ao seu lado e contava as histórias de sua viagem, o que tinha feito, o que tinha visto, o que havia descoberto e, no final, o que pretendia fazer a seguir.

Cada história, cada fato, cada coisa nova me deixava pensando. Queria ver como era de perto, queria ter a mesma experiência e fazer como o meu avô. O desconhecido, no caso dele, nunca foi uma ameaça, mas a promessa de encontrar coisas novas, de viver nova experiência, de conhecer outras pessoas, fazer amizades, estabelecer contatos, aproveitando a vida de um modo muito simples. Ainda hoje tenho guardada sua imagem chegando à nossa casa: vestido de forma modesta, com um chapéu de feltro e com uma pequena mala, onde carregava suas coisas. Formal e reservado, não era dado a abraços, mas tinha sempre um sorriso nos lábios, trazendo a promessa de novas histórias, do que, para mim, eram novas aventuras.

Hoje, olhando em perspectiva, vejo que foi ele quem despertou o meu interesse pela leitura, que não se restringiu aos livros, mas expandiu-se para revistas, jornais e folhetos. Deu um passo adiante e comecei a acumular informações sobre outros lugares, escrevendo para Embaixadas e Consulados. Nos folhetos de divulgação que recebia, me imaginava um dia na bela paisagem das fotos. Queria ter a mesma experiência de padrinho, de ver o desconhecido, de conhecer o que poucos tinham visto, de viajar, de conhecer lugares, admirar-me deles e de ampliar, como ele fez, a minha visão de mundo.

Ao reviver este pedaço do passado, reconheço que as histórias do meu padrinho e avô deram asas à  minha imaginação. Mas não me transformei no que ele foi. Sim, viajei, conheci novos lugares, encontrei novas pessoas, cruzei os oceanos, estive em culturas diferentes e perfiz um pouco do sonho que ele me fez sonhar. Descobri, neste percurso, que não existem pessoas iguais e constatei que nunca poderia ser igual ao meu avô. Sou eu mesmo, mas no que sou tem uma boa parcela do que ele construiu, ajudando a expandir a imaginação de um garoto do interior que, depois, ganhou a cidade e acabou conhecendo um pedaço do mundo.

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