O novo papa quer uma Igreja mais pobre e engajada

O PAPA, O PADRE E POBREZA NA IGREJA

Aparentemente, a escolha do Cardeal Bergoglio, que virou o papa Francisco, sinalizou uma tendência de mudança na Igreja Católica. O que vimos da passagem de Francisco pelo Brasil, onde ficou uma semana, evidenciou isso. Suas atitudes são bem diferentes dos dois papas anteriores, João Paulo II e Gregório, na verdade o Cardeal Ratzinger, um dos mais emperdenidos conservadores da Cúria Romana e que, no papado anterior, exerceu uma forte autoridade doutrinária, que levou praticamente à extinção da Teologia da Libertação.

A igreja, como nos mostra a sua própria história, nasceu muito pobre e perseguida. Jesus, nos seus sermões, mais de uma vez destacou o papel dos pobres e voltou-se para eles nos seus ensinamentos, abandonando privilégios e, até, como no caso da expulsão dos vendilhões do Templo, em Jerusalém, mostrando claramente que a religião não se deve juntar ao capital. Ao longo dos anos, no entanto, estes ensinamentos foram sendo transformados, ficando o discurso, mas faltando a ação. Padres, bispos, arcebispos e cardeais se acostumaram ao poder, ao conforto, ao luxo, criando toda uma estrutura que, além de muito cara, mantém os privilégios daqueles que conseguem se alçar na estrutura eclesiástica.

A opulência, com pouquíssimas exceções, são escancaradas. Veja-se o caso de cardeais que moram em palácios. Será que precisam deles? Atitudes como esta é que fizeram com que a igreja fosse perdendo fieis, distanciando-se deles e do que, efetivamente, queriam. Há, se compararmos, um contraste muito grande entre o que Cristo pregou e o que a Igreja Católica hoje realiza. E uma mostra evidente dessa separação e distanciamento pode ser dado com o que aconteceu em Vila Velha, ainda durante a visita do papa Francisco ao Brasil.

Em uma paróquia de um dos bairros nobres da cidade, o padre que acabara de a assumir, teve como uma de suas primeiras iniciativas comprar, com o dinheiro dos fiéis, mas para o seu uso, uma SUV importada, ao preço de quase R$ 100 mil. Fieis que pertencem à Igreja levaram o assunto à mídia local e ao ser ouvido o padre justificou a compra dizendo que como além de pároco, dirigia uma entidade de assistência em outro município, precisava do transporte para se locomover e considerou natural a compra, já que obtivera um bom desconto da empresa que lhe vendeu o veículo.

Será que este tipo de atitude se justifica? Será que ela se enquadra dentro do que Cristo pregou? Será que se o dinheiro fosse dele, faria a mesma coisa? Um detalhe adicional é que o assunto só foi levado à mídia porque o Arcebispo de Vitória, a quem o padre é subordinado e a quem foi levada a questão, não tomou nenhuma providência. Talvez porque more em um local paradisíaco, com todo o conforto que a grande maioria do seu “rebanho” de fieis não tem. A maioria dos brasileiros – e dos capixabas – como todos sabemos não tem condições sequer de comprar o mais barato dos carros populares.

Tudo isso pode nos levar a uma reflexão. Se há, de parte do papa Francisco, o desejo de mudanças, de simplificação, de olhar para os menos necessitados, ele terá de mudar uma estrutura milenar, fazendo com que a Igreja Católica volte às suas origens e não só pregue, mas viva os ensinamentos de Cristo. Não o invejo, pois Francisco, não tenho dúvida, tem uma tarefa fenomenal pela frente.

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