VIVENDO CADA DIA PELA B͍BLIA

A Bíblia não marca o fim do relacionamento dos fiéis com Deus. A afirmação, feita pelo rabino Robbie Harris, está no final do livro de “O ano em que vivi biblicamente”, de A. J. Jacobs, e pelo que sei não foi traduzido no Brasil. O livro, como indica o título, mostra o seu autor vivendo todo um ano seguindo, praticamente ao pé da letra, os ensinamentos bíblicos, primeiro do ponto de vista judaico – ele é judeu – e, no final, dentro dos princípios cristãos. É uma leitura interessante, que discute ao longo do que acontece no dia a dia de Jacobs, a visão da Bíblia e a aplicação dos seus princípios nos dias de hoje.

Um dos aspectos da discussão é como Deus é visto por quem nele acredita e o que, a partir dessa crença, deriva para a vida cotidiana das pessoas, o que pode ir de um a outro extremo, começando pelo lado mais conservador e indo até o mais liberal. O mais interessante, no entanto, é que a conclusão a que o autor chega é que, mesmo sendo agnóstico, ao adotar alguns princípios bíblicos o ser humano pode ser melhor. Ele próprio, que começou e terminou como agnóstico, reconhece que passou a ver a vida de forma diferente, tornando-se mais tolerante e atento para detalhes que, antes, não via ou se via, não considerava.

O livro de Jacobs e a prática de princípios bíblicos sobre alimentação, vestimenta, relacionamento com família e com estranhos e o vivenciar das raízes religiosas vai ao encontro de outras considerações feitas pelo filósofo Alain de Botton, que em “Religião para ateus”, mostra que a humanidade poderia melhorar se adotasse alguns princípios bíblicos e religiosos. O que ele faz diferente de Jacobs é que não se restringe apenas ao judaísmo e ao cristianismo, mas expande para outras religiões. Ambos concordam, no final, que a adoção de determinados princípios, que poderíamos chamar de éticos e morais, ajudar-nos-iam a viver melhor.

A similaritude entre os livros, no entanto, fica na convergência dos princípios. A partir daí, eles diferem e Jacobs acaba constatando a estranheza de tomar ao pé da letra o que a Bíblia diz, indo da forma de homenagear a divindade ao que comer e vestir no dia a dia e chegando às regras para o sexo e reprodução. Graças aos conflitos que a própria Bíblia gera, o autor recorreu a muitos especialistas e um deles foi Harris. O que cristãos e judeus disseram a Jacobs é que é preciso ver o espírito da Bíblia, não suas palavras, textualmente, até por ser alguns dos princípios nela pregados inaplicáveis nos dias de hoje.

Se, de um lado, fica evidente que a religião, como frisam Jacobs e de Bottom, pode nos ajudar a melhorar, tornando-nos melhores e mais compassivos e humanos, de outro há¡ sempre o horizonte do fundamentalismo, exatamente os que seguem ao pé da letra o que dizem os vários textos sagrados – não só a Bíblia. Como Jacobs observou na sua vivência, o fundamentalismo pode provocar estranhos comportamentos, levando fiéis às mais radicais posições. A história está¡ cheia de exemplos em que o nome de Deus é usado nas piores ações humanas e não só por cristãos ou judeus, mas também por muçulmanos, hindus, etc.

Religiosos ou não, o que precisamos buscar é o equilíbrio. Usando-o, poderemos descobrir que, mesmo não crendo, estamos praticando princípios bíblicos ou religiosos nas nossas vidas. Afinal, o fundamento de toda religião é fazer o bem. E certamente quando o fazemos, estamos agradando a Deus.

Compartilhe:

Twitter
Facebook
LinkedIn
Pinterest

Add a Comment

Your email address will not be published. Required fields are marked *

Trump e o retorno ao passado: a volta da história

TRUMP E O RETORNO AO PASSADO

As ações do presidente Donald Trump configuram uma tentativa de volta ao passado, virando o rumo da história. Mas o que a própria história mostra é que o novo sempre supera o velho. Ao manter-se no velho, quem nele fica, olha para trás e perde o futuro.

Leia mais »
O Grande Irmão e o capitalismo de vigilância

A VIGILÂNCIA DIGITAL COMO ROTINA

Hoje, a realidade supera a ficção e o Grande Irmão, do romance 1984, de Orson Wells, foi superado pelo capitalismo de vigilância, que lucra com os dados de quem via, em todos os momentos da vida, através dos aplicativos e da internet.

Leia mais »
O brote, o pão pomerano dos capixabas, servido e à espera de ser consumido.

BROTE, O PÃO POMERANO DOS CAPIXABAS

O brote, o pão que os pomeranos criaram e que se tornou ícone cultura do Espírito Santo, é uma receita simples e fácil de fazer, resulta em um ótimo pão para o café da manhã, o lanche da tarde ou, mesmo, para um sanduíche à noite.

Leia mais »
Um pão básico e rápido feito com fermento natural que ficou ótimo

PÃO BÁSICO RÁPIDO COM FERMENTO NATURAL

O pão de fermentação natural pode ser feito de modo mais rápido e, mesmo assim, ser gostoso e saudável. É o caso desta receita, que acabei de testar. O meio para encurtar o tempo é deixar a massa fermentando durante a noite, estando pronta para ser moldada, fazer a segunda fermentação e ser assada logo na manhã do dia seguinte.

Leia mais »