OS CACOETES DE TODOS NÓS

Manias, já disse o poeta, são coisas que a gente tem mas não sabe o porque. Todos nós, de uma ou de outra forma, a temos. Mas será que poderíamos chamá-las, também, de cacoetes? Acho que, no final, são as mesmas coisas e que, sem perceber, as fazemos, permitindo a observação dos outros. E isso se dá não apenas no comportamento, mas também na linguagem, na forma de expressar.

Eu, por exemplo, tenho a mania de, ao falar sobre um determinado assunto, perguntar: Por que? E, em seguida, explico o que havia perguntado. Mania ou cacoete de jornalista, cheio de porquês e que está sempre buscando uma explicação para as coisas. Vícios de linguagem, sobretudo na fala, praticamente todos nós temos. É que ao falar não precisamos nos ater a algumas regras da língua escrita.

Estes vícios de linguagem são mais notados quando se trata de discursos, não simplesmente da fala coloquial. Observe alguém que está falando para uma plateia e não se atenha a um texto escrito. Irá notar que ele tem vários cacoetes de linguagem. E foi isso o que fiz, nestes últimos dias, ouvindo alguns discursos de políticos. Em um deles, notei que usa o “portanto” frequentemente, mas que este uso nada tem a ver com o sentido da palavra, que é explicativa ou conclusiva.

De um outro, observei o apego que tem ao “porém”, usado totalmente fora do seu sentido, mas que completa praticamente todas as frases ditas. E de um terceiro, a observação foi do “que”, colocado no início de cada frase, como que para chamar a atenção para o falado. Na fala de cada um deles, o português não era da melhor qualidade, já que entremeado de concordâncias e palavras erradas. Todos, no entanto, são representantes do povo, eleitos para mandatos populares.

Neste caso, acho que os eleitos são o reflexo de seus eleitores. Mas, neste mesmo contexto, há os que dominam a linguagem e o discurso, encantando quem está ouvindo. No campo político, os dois convivem e, muitas vezes, tem os mesmos eleitores, pois podem disputar mandatos distintos, como o de Vereador e Deputado. Aqui, a fala coloquial, que se aproxima do eleitor, torna o discurso atraente e ele não olha se quem fala usa o bom português ou não. Mas se há uma identificação com o coloquial, o bom discurso, a sedução da oratória, acaba destacando quem a faz e usa, gerando admiração.

Nos dois casos, com cacoete ou sem ele, o discurso resulta. E acho que isso ocorre não só na política, mas também no dia a dia. E, ao falarmos, sejamos cultos ou não, não estamos livre dos cacoetes da fala. Comigo é assim. E com você, o que ocorre? Qual é o seu cacoete?

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