Pretos, pardos, pobreza e desigualdade no Brasil

RACISMO, POBREZA E PRIVILÉGIOS BRANCOS NO BRASIL

Você é branco? O simples fato de sua pele ser branca já o torna um privilegiado no Brasil, como mostra levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). No imenso mar de pobreza que atinge boa parte da população brasileira, os mais pobres e os que menos têm são negros e pardos.

De acordo com o IBGE nada menos do que 21,6% de toda a população brasileira vive em residências que são inadequadas, somando mais de 45 milhões de pessoas. Deles, 70% são negros ou pardos, nada menos que 31 milhões de pessoas. Esse enorme contingente mora mal, apertado, não tem condições sanitárias e nem infraestrutura de serviços.

CASAS INAPROPRIADAS

Tomemos como exemplo uma residência de quem está nesta estatística. Ele mora em uma favela, sua casa não tem banheiro dentro, as paredes não são de materiais duráveis, há mais de 3 pessoas dormindo em cada quarto, o aluguel consome até 30% da renda e ele não é o proprietário de sua própria residência.

Além disso, onde ele mora não existe infraestrutura adequada. Não há esgotamento sanitário, existe carência de serviços públicos como falta de água, coleta de lixo, transporte público adequado, escolas e serviços de saúde. As residências, cujo tamanho o IBGE não mediu, são mal iluminadas, a ventilação é ruim e a acessibilidade a ela, difícil.

Acrescente a estes problemas o desemprego, já que ele é muito maior entre a população negra e parda do que entre a branca e temos o enorme problema com que o país tem de lutar para corrigir uma desigualdade secular, que transformou negros e pardos em cidadãos de segunda categoria.

PRIVILÉGIO DOS BRANCOS

Imagine a distância que essas famílias, que estão tão perto de nós, estão das condições mínimas de uma moradia e de infraestrutura? Sim, existem brancos, mas eles são, marcadamente, uma minoria. O que os números ressaltam é o tamanho do privilégio que os brancos tem em relação ao negro no Brasil.

Ninguém é pobre por querer ser pobre. E isso se aplica, também, àqueles que poderemos dizer que são paupérrimos. O que lhe falta é condição de crescerem, começando pelo enorme racismo existente no Brasil, passando por educação e oferecimento de trabalho. Outros números do IBGE mostram que o desemprego entre pretos e pardos é muito maior que entre os brancos, o que alarga o fosso da desigualdade social.

O Brasil sempre se mostrou como um país miscigenado, com oportunidades para todos. Sempre foi uma mentira e os números o provam. Temos uma dívida impagável com os pretos, escravizados e trazidos para essas terras para enriquecerem os brancos. Eles ajudaram a construir fortunas, mas foram abandonados e discriminados em todos os níveis.

RACISMO, O PROBLEMA

No caso dos negros e pardos, o racismo é a base de tudo. Eles são discriminados desde o nascimento. Não tem ensino adequado – aliás, no Brasil, poucos o tem – e vivem em condições mais precárias que 89% da população.

Será que o fazem por querer? Certamente que não. Somos nós, os brancos, que os colocamos na posição que estão. E isso nos dá a obrigação moral de retirá-los dela, abrindo-se lhes oportunidades, oferecendo o que já é oferecido aos brancos: serviços médicos, infraestrutura, educação e emprego.

Escravidão moderna, sem distinção de cor ou raça

A MODERNA ESCRAVIDÃO DE HUMANOS

No Brasil, como nos diz a história, a escravidão foi abolida no século XIX, com a chamada Lei Áurea. Foi o ponto culminante de um movimento que vinha ganhando força há algum tempo e não foi feito, como registram os historiadores, em benefício dos escravos, pessoas negras forçadas a sair de suas terras, que perderam a liberdade e foram brutalizados, humilhados e escravizados.

Mas quem pensa que a escravidão faz parte somente da história está enganado. Ela continua existindo, no Brasil e no mundo. Só que ganhou um nome mais politicamente correto, sendo chamada de Condição Análoga à Escravidão. O nome mudou, mas a situação, não. Existem escravos no Brasil e no mundo e não são poucos.

De acordo com matéria da revista Veja, de dezembro de 2018, existem mais de 160 mil pessoas no Brasil em condições análogas à escravidão. Outra matéria de Aos Fatos, de agosto deste ano, informa que de 2003 a 2018 mais de 45 mil pessoas foram resgatadas do trabalho escravo no Brasil, onde a escravidão é crime, conforme estabelecido na nossa Constituição.

A exemplo do que acontecia com a escravidão negra, o que caracteriza o trabalho escravo é o trabalho forçado. Mas não só ele. Ele pode ocorrer, também, por servidão por dívida, quando alguém é obrigado a trabalhar para pagar suas dívidas, que não acabam nunca. Jornadas excessivas também são consideradas como escravidão, assim como o impedimento de deixar o local de trabalho.

Ao lado dessas condições, que tornam pessoas escravas, ainda temos o tráfico humano. De acordo com a ONU ele vem crescendo e, em 2018, chegou a 25 mil pessoas no mundo todo. Aqui, trata-se apenas do tráfico, não da escravidão, mas as duas coisas vivem juntas.

Em um mundo interligado e com a quase onipresença da mídia é, para dizer o mínimo, curioso ver que ainda temos escravos modernos. Mas o pior disso é que em muitos lugares, inclusive no Brasil, muitos fazem vista grossa para este fato, buscando justificar a ação de maus empresários e querendo evitar que sejam punidos por um crime que, no meu entender, deveria ser classificado como odiondo.

Ah, e um dado final. Hoje, a escravidão não escolhe cor de pele. Ela ocorre com negros, brancos e amarelos. E este é um dos lados mais sombrios do capitalismo.

Eleições mostram Brasil mais politizado e crítico

BRASIL, UM PAÍS MAIS CRÍTICO E POLITIZADO

O Brasil saiu das eleições presidenciais deste ano mais crítico e politizado. A afirmação não serve de explicação para quem ganhou e tampouco de consolo para quem perdeu, mas o fato é que vimos nascer, ao longo da campanha, um país bem mais crítico e politizado que antes, chegando a quase uma divisão meio a meio entre os dois lados. No final, contatos os votos, como acontece em todas as eleições e em todas as democracias, um candidato venceu, os outros, não. Este, na verdade, é apenas um olhar – e neste caso, muito particular – sobre o resultado das eleições. Outros, podem ser encontrados nos jornais, na televisão e no rádio através das múltiplas análises já feitas e que ainda se farão.

Mais voltemos. Por compromisso profissional ou por interesse acompanho as campanhas eleitorais no Brasil desde a época do regime militar – a decantada ditadura. Nele, as eleições eram apenas legislativas, já que eram os generais que consagravam os próximos presidentes, limitando os acertos a um pequeno número de “eleitores qualificados”, com a população nada podendo dizer. Quando os militares deixaram o poder, a primeira eleição presidencial também foi indireta, só que agora sancionada pelo Congresso, que havia sido eleito pelo voto popular, embora ainda fosse fruto de uma eleição feita sob a égide dos militares.

Na primeira experiência de eleição democrática – a última havia sido em 1960 – os brasileiros que, em sua maioria ainda não tinham votado para Presidente escolheram Fernando Color de Mello, apeado do poder devido a um processo de impeachment. Saiu Color e entrou Itamar Franco, que era o seu vice. Começamos, de fato, a época da democracia, com a substituição de Presidente sendo feito respeitando-se todas as formalidades legais e sem atropelos. É de Itamar Franco a invenção do Plano Real, que catapultou Fernando Henrique Cardoso à Presidência com uma vitória no primeiro turno.

A partir da eleição de FHC já passamos por cinco novas eleições ao longo de 20 anos e, nelas, se olharmos a história e os números de votos de cada eleito constatamos que as diferenças foram maiores e que, nem de longe, houve a polarização da eleição deste ano. E foi esta polarização que, em determinados momentos, chegou a ameaçar a reeleição da presidente Dilma Roussef e deixou-nos a todos no suspense até que o Tribunal Superior Eleitoral divulgasse os primeiros números da apuração. O que vimos é que a polarização chegou a tal ponto que as posições deixaram de ser razoáveis, com discussões de tom elevado e bastante xingamento entre partidários dos dois candidatos, com a mídia social tendo um papel se não central, pelo menos muito destacado na campanha.

Concluído o processo temos um quadro que mostra o país dividido. De um lado, as regiões Sul, Sudeste e Centro Oeste. Do outro, o Nordeste e o Norte. O desafio agora é voltar a unir novamente este país, atendendo a apoiadores e críticos e transformando o belo processo democrático em um benefício para todos os brasileiros. A presidente Dilma ganha uma nova oportunidade, mas certamente vai governar sob lentes muito mais críticas do cidadão.

Política, da posição dual à participativa, pensando na maioria e no futuro

POLÍTICA, POSIÇÕES E A SUA NECESSIDADE

Entre uma boa parcela de brasileiros a política é vista como algo desnecessário e de que devemos ficar distantes. Esta ideia parte de uma falsa premissa que confunde políticos com a política, o que não é verdadeiro. Os políticos são, na verdade, uma pequena parte da política, que é muito maior, muito mais abrangente e está inserida no dia a dia de todo mundo. Aos que me dizem que não são políticos, costumo mostrar que o simples fato de assim se posicionar é uma atitude política. Participar ou não, é decisão de cada um, mas revela, sim, a sua postura política.

Se a política é o centro deste texto, não é nela, em si, que quero focar. Estamos em um período eleitoral e nele, normalmente, vemos surgir posições extremadas ao centro, à esquerda e à direita – classificações  que, hoje, na verdade, não tem muito significado. Na disputa, o mundo torna-se dual, com alguns sendo contra e outros a favor. Tudo vira branco ou preto. Chegamos ao texto de “se não sou a favor, sou contra”, referindo-se sempre a uma posição política ou partidária ou a uma atitude em relação a um ou mais candidatos.

O mundo e as coisas não são assim. Há, em todos os campos, uma multiplicidade e, nela, convivem as mais variadas tendências, opções, opiniões, posições. Às vezes, algumas se chocam. Em outras, são complementares. Em uma terceira, podem se afastarem ou se aproximarem, dependendo da situação. Colocar tudo como se fosse uma ou outra coisa, restringe as opções e dirige o olhar, fazendo com que deixemos de ver coisas que são importantes. O que deve determinar uma postura é o momento e a análise do que ele nos trás, olhando todo o contexto, não apenas o que estamos vendo.

Nunca me furtei de tomar posições e as tomo, sempre, às claras e, nesta eleição, não é diferente. Todos nós temos o direito – e acho que até o dever – de nos posicionar e fazê-lo com a mais ampla liberdade. E o fato de não nos alinharmos com um amigo, com suas posições, não significa que estejamos contra ele. As amizades, no meu entender, estão acima das posições políticas e estas prevalecem, mesmo na discordância.

Cheguemos, após tudo isso, a um novo ponto: a escolha de um candidato. Como é que o fazemos? Não posso falar pelos outros, mas sempre tenho alguns parâmetros e um dos que mais me influenciam é a biografia do candidato, o que ele fez, que posições tomou, como se porta na vida pública e na vida privada, quais são suas crenças, como encara um mandato e como pretende exercê-lo. Dentre todas as coisas, o mais essencial é que tenha uma vida limpa.

Tudo isso vem a propósito de uma posição que reconhece a vida como múltipla, não como dual. E que a vê inserida no mundo, inclusive da política, no qual defendo a participação. Afinal, se não participarmos construindo o que queremos, deixamos o futuro nas mãos dos outros. Sou dos que acham que temos de posicionar e ao adotar uma posição – ignorando as classificações que nos irão dar – pensemos não em nós mesmos, mas em benefício da maioria. Afinal, se ela for beneficiada, nós também seremos.

E quando se trata de política, como já muito bem observou Maquiavel, o bem maior se sobrepõe ao menor – o coletivo tem precedência sobre o individual.

A desproporcionalidade da luta em Gaza, o tanque contra a pedra

ISRAEL, DIREITO DE DEFESA E PALESTINOS

Uma das coisas discutidas pela ciência são os instintos humanos, principalmente o de defesa, quando o corpo entra no automático e evita que sejamos prejudicados. A legislação internacional e a nacional, na maioria dos países, reconhece a existência desse direito, significando que alguém pode – e deve – se defender quando atacado. É o sentido de preservação. de proteção. E esta ação é também estendida aos Estados, considerados soberanos e, por isso, capazes de se defenderem contra agressões de outros Estados ou como é muito comum nos dias de hoje, dos chamados “grupos terroristas”, ideologicamente movidos que tentam atingir outro grupo – frequente em alguns países da África e Oriente Médio – ou países.

A propósito de que vem esta introdução, deve estar se perguntando se chegou até aqui? O título é uma indicação. Temos visto, nos últimos dias, o noticiário recheado com informações sobre a campanha de Israel contra os palestinos na Faixa de Gaza. A violência da ação já deixou centenas de mortos, crianças e adultos. As primeiras, na certa, nada tinham com o conflito e, no caso dos segundos, acredito que a grande maioria. Sou daqueles que penso que Israel tem todo o direito de existir, mas isto não exclui o direito dos palestinos. Acho, também, que Israel tem o direito de se defender, mas a reação que tomou, sob qualquer ângulo que seja analisada, é desproporcional e, por isso mesmo, não justificável, principalmente por atingir civis.

A desproporcionalidade se dá não apenas pelo volume do ataque, mas também pela relação de força, uso da tecnologia e recursos armados que combinam forças do Exército, Marinha e Aeronáutica. Para usar uma figura de linguagem é como se alguém usasse um canhão para matar um mosquito. A justificativa de prevenção do terrorismo e de ataques contra Israel pode servir para aplacar as dúvidas éticas dos apoiadores incondicionais do país e de suas ações, mas estão longe de se sustentarem. Nada pode justificar a matança, a irracionalidade de uma guerra que, no final, não terá ganhadores, mas apenas perdedores. Perdem os palestinos, que irão continuar ilhados, isolados e submetidos a uma extrema pobreza.

E perde os judeus e Israel. Os primeiros, por se tornarem objeto – mais uma vez – da antipatia e, em alguns casos, do ódio de outros povos, principalmente os que professam o islamismo como religião. E o país, em si, por se ver como pária da comunidade internacional, adotando ações que são condenáveis, tanto pela opinião pública, quanto pelos próprios Governos, que se mobilizam para parar a ação e estabelecer tréguas ou negociações. Racionalmente, é preciso parar uma briga sem fim, reconhecendo que palestinos e judeus tem, sim, direito ao seu próprio Estado, como já reconhecido há muitos anos pela Organização da Nações Unidas, e que apesar das diferenças podem, sim, viver em paz.

Sem um claro caminho para a paz, pode vir uma escalada do conflito e é o que ninguém deseja ver. O fato – além da deselegância da diplomacia de Israel de chamar o Brasil de “anão diplomático, por não apoiar a ação do país – é que a ação do Estado Judeu – e não se refere, aqui, à confissão dos cidadãos israelenses ou de sua origem étnica – não é justificável, como já afirmei. E um dos pontos é exatamente que não se trata de uma defesa e está longe de ser, como gostam os militares de dizer, de um ataque cirúrgico. Não é isso. O que vem acontecendo está sendo chamado de massacre e as imagens mostradas falam mais do que tudo.

Em nome até da racionalidade, é preciso parar com este tipo de matança. E isso, é claro, não se aplica só a Israel, mas a qualquer país que tome iniciativas idênticas. A guerra é, sob todos os aspectos, irracional. E nela, como se tem provado ao longo da história, todos perdem.

Insatisfeita, população pode mudar política e políticos na eleição

UM CLARO DESEJO DE MUDANÇA

Uma das constantes neste blog, desde o seu início, é a abordagem de assuntos políticos e a defesa da política, que considero essencial à democracia – e nisso não estou sozinho, pois teóricos e escolásticos também pensam desse jeito. A política está presente em todos os nossos atos, embora muitas vezes não o admitamos e nem pensemos que, com uma simples ação, estamos agindo politicamente. E isso não ocorre só em nível macro, mas também no micro, como bem observa Michel Focault ao falar em uma microfísica do poder, que se desenvolve até entre relações pessoais.

Mas ao que vem isso? Não é preciso um motivo ou um pretexto para se falar de política, mas, neste caso, a origem da decisão estão em uma pesquisa feita pelo Datafolha e divulgada há poucos dias, mostrando que nada menos do que 67% dos brasileiros querem que haja mudanças na ação governamental. Acho que esse desejo de mudança foi claramente demonstrado nas grandes manifestações de 2013. A população, de um modo geral, está insatisfeita com os rumos tomados pelo Brasil, com a forma como está sendo conduzido e considera que é preciso mudar, embora não se tenha um horizonte claro de onde esta mudança deva ser levada e conduzida.

A percepção de que é preciso mudar e que há um desejo evidente de mudança torna-se importante às vésperas de uma eleição em que serão trocados os principais governantes do Brasil, apresentando um desafio para quem, por exemplo, disputa uma reeleição e para os que pretendem substituir os atuais ocupantes do poder. A grande questão para os políticos é como capitalizar essa insatisfação, transformando-a em votos. Essa, no entanto, não é a minha preocupação. O que me levou ao assunto, novamente, é o fato de termos, nos últimos tempos, mudado para que tudo continue o mesmo.

Estamos com 30 anos de regime democrático, com eleições livres e com partidos consolidados. É inegável que neste tempo houve muitas mudanças no Brasil, que cresceu, expandiu sua economia, melhorou de vida e inseriu milhões de pessoas na chamada sociedade de consumo. Mas há, também, – e isso é inegável – um enorme fosso entre os brasileiros, divididos entre os que tem alguma coisa e os que nada tem. Os dois lados, no entanto, são os destinatários dos problemas de segurança, saúde, educação, trânsito, violência, tráfico de drogas e muitos outros problemas que diariamente vemos refletidos no noticiário da mídia.

A percepção geral do brasileiro, por causa de todos estes problemas, é de que, na verdade, não houve melhoras. O que tenho ouvido é que as coisas pioraram nos últimos anos, principalmente nos segmentos de trânsito – mobilidade urbana -, segurança pública e controle da violência e da saúde. Os três, juntos, são os responsáveis pela maior parte da insatisfação da população, em todos os seus níveis. A percepção que se tem é que o poder público – e neste caso a política – é incapaz de agir para resolver estes problemas.

A consequência é a imensa insatisfação do brasileiro, que leva a um desejo claro de mudança. Nas eleições de outubro, quem souber melhor capitalizar este sentimento pode manter ou chegar ao poder. Mas a maior expectativa, no meu modo de entender, é saber se com ou sem mudança as coisas serão resolvidas e os problemas, sanados.

 

Insatisfação existe, mas o que o povo quer, na verdade?

O QUE MESMO O POVO QUER?

Desde que surgiram, as pesquisas de opinião pública mostram, quando feitas de modo acurado, um retrato do momento da opinião popular. Elas erram, todos nós sabemos, mas as margens de erros são pequenas e ocorrem, no mais das vezes, quando não são feitas de modo constante, passando longos períodos sem medir o que o povo pensa. Pode-se argumentar, contra elas, que podem ser manipuladas, o que é verdade. Mas as empresas sérias vivem de sua credibilidade e se os resultados apresentados forem muito diferentes da realidade, elas o perdem e, com isso, clientes e dinheiro. Neste caso, a honestidade é boa para os negócios. Dito isso, vamos ao ponto: as manifestações que levaram às ruas milhões de brasileiros que pediram e continuam querendo mudanças.

O que mesmo o povo quer? Esta é a pergunta mais comum que ouço. Perplexas, as pessoas não alcançam que tipo de mudança a multidão, que não tem um líder para se expressar por ela, quer. As agendas são as mais diversas e não tem havido, a não ser em casos esporádicos, um foco no que pedem. Nesta hora, a pesquisa de opinião pode ajudar. Tomemos o caso do Espírito Santo. Aqui, temos um instituto, o Futura, que está no mercado há vários anos e tem apresentado resultados acurados nas pesquisas que faz, sobretudo quando se trata de aferir preferências eleitorais. Pois seus pesquisadores foram às ruas e perguntaram para a população o que ela queria que mudasse e, não só isso, se era favorável às manifestações.

À segunda questão, 94 em cada 100 ouvidos disseram que sim, são favoráveis às manifestações. Quando ao que querem, o resultado é, também, muito revelador. O que o cidadão mais quer que mude é a saúde e a má assistência que o serviço público dá, hoje, a quem o procura. Mais de 70% dos entrevistados colocaram a saúde em primeiro lugar e elegeram como segundo ponto a educação, com quase 60%. Façam as contas: De cada 100 pessoas, 70 querem mudanças na saúde e 60, na educação. Estes são pontos muito claros e percorre todas as faixas de idade, classe social e nível de ensino. O terceiro item, com índice bem menor do que os dois anteriores, é o combate à corrupção, com 27,5 dos entrevistados a apontando como prioridade.

Se, de um lado, a pesquisa responde ao quesito “o que o povo quer?”, de outro deixa claro que alguns pontos na agenda de manifestantes não lhes atrai, assim, muito. Veja-se o caso do passe livre. Apenas 5,5% consideram que este deva ser um assunto tratado pelo poder público, um índice, no meu entender, muito baixo, o que indica que, para a população, ele não é prioritário. Aqui, no Espírito Santo, temos um caso emblemático, que é o pedágio da Terceira Ponte. Defendendo o seu fim, manifestantes ocuparam a Assembleia Legislativa e se confrontaram com a Polícia quando da votação de um decreto que suspendia este pedágio. O que fizeram – e que ecoou no Legislativo – era, diziam, em defesa da população, que quer o fim da cobrança. Se é assim, não é o que diz a pesquisa da Futura. Nela, apenas 0,2% apontam o pedágio como prioridade. Se extrapolarmos este percentual para a população do Estado, que está próxima de 4 milhões de pessoas, teríamos menos de 80 mil dizendo que a suspensão da cobrança de pedágio é uma prioridade.

Por que estes números? Eles são importantes diante das várias cortinas de fumaça existentes, levantadas tanto pelo próprio poder público, quando por entidades como centrais sindicais e outras entidades. Se no Espírito Santo a opinião pública tem um desejo claro, acredito que seja assim, também, no resto do Brasil. As pesquisas feitas comprovam isso e são, efetivamente, um retrato do momento. O que a população quer está claro e ela tem prioridades claras, achando que a saúde, a educação e o combate à corrupção devem ser atacados de imediado. Depois, vem outros itens que, no entender dela, não são assim tão prioritários.

Responder à pergunta “o que mesmo o povo quer?”, ao contrário do que dizem os donos do poder, é muito fácil. Basta olhar as pesquisas e, nelas, ver o que a população efetivamente está dizendo.

Sem pedágio, o custo é pago pelos impostos de todos

SE NÃO PAGO, EU PAGO

Um dos temas meio que recorrentes nas últimas manifestações por todo o Brasil, mas notadamente em Vitória, é a suspensão da cobrança de pedágios. Aqui no Espírito Santo, vândalos – e não manifestantes, porque eles são pacíficos – destruíram as cabines de pedágio da Terceira Ponte e roubaram todo o dinheiro nelas existentes, incluindo sacos de moedas destinadas a dar troca àqueles que pagam o valor cobrado pela concessionária do serviço. A questão, em primeiro lugar, é: alguém é favorável aos pedágios? Se sairmos por aí perguntando vamos descobrir, com toda certeza, que só os empresários que o recebem é que são a eles favoráveis. O resto da população é contra.

O fato de a grande maioria ser contra, não significa, de fato, que a cobrança não possa ser feita. Daí, uma segunda questão: Se eu que uso a ponte e pago pedágio deixar de pagá-lo, quem pagará por mim? O economista Milton Friedman disse, certa vez, que não existe almoço de graça. Você pode até não estar pagando a conta, mas alguém o está fazendo. É o mesmo com o pedágio, se eu não pago, alguém vai ter de pagar para manter a ponte e seus serviços funcionando. Os serviços deixarão de ser privados e se transformarão em público e, neste caso, quem financia os serviços públicos são os tributos que todos nós pagamos.

O fato é que, no caso de o pedágio não ser cobrado do usuário de uma ponte ou rodovia, no caso dela estar sob o regime de concessão ou não, transferirá esta cobrança para o cidadão. Tomemos o caso da Terceira Ponte, que liga os municípios de Vitória e Vila Velha, no Espírito Santo. Quem a usa, paga. E quem faz isso é apenas uma pequena parcela da população dos dois municípios. Ao deixar de pagar pelo uso, o ônus da manutenção irá para os cofres públicos, o que significa, no final, que todos irão pagar para que os usuários da ponte dela desfrutam. A situação é: Se eu não pago o meu pedágio, vou pagá-lo junto com todos os outros capixabas, inclusive aqueles que não tem carro, não andam de ônibus que usa a ponte e sequer passam por ela.

Nós, brasileiros, temos a impressão de que as coisas, principalmente as públicas, são gratuitas, que não devem custar nada. Se é do Governo, pensamos, é de todos. Sim, é verdade. O que é público, é mesmo de todos. Mas existe um outro lado: Se é público e é de todos, somos também nós todos – todos os cidadãos, sejam ricos ou pobres, usem ou não o serviço – que iremos pagar pela manutenção de um serviço, do acerto da rodovia, da segurança da ponte. Na verdade, o que os manifestantes estão pedindo é que sejam desobrigados de pagar o pedágio integral e que este pagamento seja dividido com toda a população.

Outro aspecto é que transferindo-se os encargos para o serviço público ele terá de arranjar dinheiro para financiar o que, antes, era feito pela iniciativa privada. A cobrança, neste caso, cobria os custos de manutenção e investimentos, desobrigando o Estado de dispender os seus parcos recursos com este tipo de ação. Uma coisa clara é que, em todas as situações, recursos são limitados e as demandas, muito maiores que eles. Isso significa que dinheiro terá de ser retirado de um lugar para cobrir outro e, neste caso específico do pedágio, alguma coisa deixará de ser feita em áreas muito mais necessárias, como saúde, educação e segurança.

O último aspecto é a existência de um contrato. O concessionário tem um contrato com o Estado e vai fazer com que valha, se preciso indo à Justiça. Pode levar tempo, mas com toda certeza ele será indenizado, com o Governo tendo de lhe pagar as perdas, prejuízos, lucros cessantes e muito mais. O dinheiro virá, novamente, do contribuinte. Somos todos nós, de novo, pagando por algo que apenas uma pequena parcela usa. Estamos, na verdade, bancando o Robin Hood às avessas, tirando de quem é mais pobre para financiar os mais ricos.

Você já tinha pensado nestes pontos? Eu já. É hora de pararmos de pensar que tudo que vem do Estado é de graça. Não é. E basta um dado para justificar: a carga tributária está chegando a 40% do Produto Interno Bruto brasileiro. Traduzindo: de tudo que ganhamos, 40% vai para o Governo. A questão final é: queremos pagar mais impostos para que os usuários possam passar por pontes e rodovias sem pagar? A minha resposta é não.

Não quero pagar pelo que não uso e não quero pagar mais impostos. Se quem é favorável ao fim do pedágio quer, é bom saber que se eu não pago, continuo pagando, mas ele também irá pagar. Tão certo quanto a soma de dois mais dois.

Cabe à política ver e realizar o que o povo quer

O PAPEL CENTRAL DA POLÍTICA

Um dos aspectos marcantes das enormes manifestações feitas no Brasil nos últimos dias é a desconexão com os políticos, que são criticados e colocados de lado, havendo uma separação nítida, que exclui os partidos e aqueles que estão engajados neles. O que vemos é uma tentativa de exclusão da política na resolução dos inúmeros problemas que o país tem e uma tentativa de, manifestando a insatisfação, que é geral, se consiga mudar, modificando o comportamento dos políticos e, com isso reformando a política.

O que ocorreu nos últimos tempos é que, a cada dia, os políticos ficaram mais desconectados do povo, de seus anseios. A política passou a ser feita não em benefício da maioria, mas no do próprio político e daqueles que a ele são próximos, provocando a desconexão com os reais anseios da população: melhor transporte, mais educação, melhor assistência à saúde e segurança. Uma boa mostra desta desconexão é a criação de várias “bolsas”, que beneficiam segmentos, mas não resolvem as questões básicas do país.

Há, ainda, outro fato marcante que pode ser observado, que é a ausência de uma liderança, já que as manifestações surgem de mobilizações horizontais, com o uso massivo da mídia social que, por sua própria característica, não tem centro. Quem parece entender isso é a ex-Senadora Marina Silva, que em um belo artigo para a Folha de S. Paulo apontou esta desconexão. Se não há líderes, não há quem ouvir, com quem dialogar. O que a manifestação aponta, no entanto, não é a construção de novas lideranças, mas o desejo de mudança, de que o país tome novos rumos, que as coisas aconteçam de modo diferente. Perplexos, os políticos não sabem o que fazer, começando na Presidente Dilma Roussef e chegando ao Vereador, mais ligado à comunidade que, pensa, representa.

Será que para entender a situação é preciso acabar com os partidos, como sugere o Senador Cristóvam Buarque? Em uma democracia, que é sempre formal, os partidos devem ser o canal que leva o desejo da população ao poder, conformando-o e devolvendo em ação aquilo que o eleitor pede e quer e, ao mesmo tempo, enquadrando dentro das possibilidades de orçamento e levando em consideração o que é melhor para a maioria. Como sabemos, nunca é possível atender a todos.

No Brasil, este comportamento partidário deixou de existir há muito tempo e é esta desconexão entre eleito e eleitor que está evidente agora. Os políticos, tem se gritado a toda altura nas manifestações, não representam a população. Se isso é verdade – e acredito que seja – quem é que eles estão representando? Do ponto de vista político, esta é a questão fundamental a ser respondida. Do lado da população a resposta está clara: ela não se sente representada. E pior, mostra-se completamente decepcionada com o que está sendo feito que, na verdade, está na contramão do seu desejo.

Um mostra clara disso são as críticas aos gastos com a Copa do Mundo. Em um país onde o futebol é o “esporte das multidões”, assunto quase obrigatório em todos os segmentos, critica-se os gastos com a competição, fruto do investimento de mais de R$ 33 bilhões. Se aplicado na saúde, este dinheiro resolveria muitos problemas e a população seria melhor atendida. O que fica claro, no final, é que a população, que à primeira vista parece despolitizada, tem informações e sabe o que está sendo feito, que não é sua prioridade.

As ruas falaram e, em muitos casos, os políticos parecem que não ouvem, que são surdos. Poucas vozes, até agora, ousaram analisar e interpretar a insatisfação instalada no Brasil. Descobriram, de repente, que não representam quem achavam que representavam e que estão na contramão do que a sociedade deseja. As manifestações mostraram claramente que a população deseja um novo caminho e, ao construí-lo, a política será essencial, sobretudo por vivermos em uma democracia e em um regime representativo.

Políticos são descartáveis, podendo ser eleitos ou derrotados. A política, não. Ela é essencial, já que é através dela que se fará as mudanças pedidas pela sociedade. As manifestações, no meu entender, são a prevalência da política sobre os políticos. Ao ir às ruas os manifestantes tomaram, de forma clara, uma posição política e ela indica que a sociedade deseja mudanças. O fato de se caracterizarem como apartidárias e repudiarem os políticos, não tira delas o aspecto visceralmente político do que está sendo feito. A sociedade fez uma declaração clara de intenções, pedindo mudanças, mas elas só irão ocorrer se houver ação política. E isso as ruas não podem fazer.

Cabe aos políticos ouvir a voz do povo e, a partir dela, implementar as mudanças pedidas. Ou, então, irem para o oblívio.

Manifestação não deve se confundir com violência

DEMOCRACIA, MANIFESTAÇÕES E VANDALISMO

Quando jovem, eu quis mudar o mundo. Dentro de uma redação, vivendo o dia a dia de um Governo militar que instituiu o terror no Brasil, procurei junto com muitos outros colegas mostrar o que estava havendo, burlando a censura – externa e interna – para que o leitor tivesse uma ideia do que acontecia na sua cidade, Estado e país. Vi a abertura e acompanhei, ainda como jornalista, a chegada da democracia no Brasil, uma mudança significativa para quem, como os integrantes de minha geração, viveram duas décadas sobre o regime cívico-militar que derrubou um Presidente legítimo e tomou o poder.

Sinto orgulho do que fiz, como cidadão e jornalista. E vejo, agora, que o que todos nós, à época, fizemos não foi em vão. Ver as pessoas na rua, defendendo posições, nos deixa recompensados. É preciso mostrar ao país que, ao contrário do que pregam os líderes do regime, não está tudo bem, que não nos conformamos, que ainda temos disposição para tentar mudar as coisas. Jovens e idealismo fazem a junção ideal para extravazar o que sentimos. Todos nós, por mais acomodados que estamos, sentimos algum incômodo com a situação da saúde, da educação, do trânsito e, sobretudo, da violência, que está se transformando em epidemia ou pandemia.

Os protestos são mais do que justos, embora tragam algumas reivindicações que são utópicas, mas isso é o fruto da juventude. O que vimos foram milhares e milhares de pessoas manifestando-se de forma pacífica e ordeira, externando uma insatisfação que não é só delas, mas que permeia se não a maioria uma grande parcela da população brasileira. E o melhor foi ver que não há uma concentração desta insatisfação, já que está espalhada por todo o Brasil e até pelo exterior, onde vivem brasileiros.

O único senão dos protestos – ou manifestações, como a queiram chamar – são os vândalos. Eles, pensando que estão contestando o regime, reivindicando mudanças, estão oferecendo a oportunidade de o Estado reagir e reprimir, encontrando motivos de desqualificar as centenas de milhares que foram às ruas e os outros milhões, que não foram, mas que os apoiam. Como defender a depredação do patrimônio público e privado? Como defender a violência gratuita do ataque contra policiais que eram apenas espectadores? Claramente, este pequeno grupo, que procura o confronto, querem provocar o tumulto e, com isso, desqualificar um movimento que se fez de modo ordeiro.

Reivindicar e protestar é próprio da democracia. Ela é, por sinal, o único regime que aceita ser contrariado. Não que goste. Mas é da essência do regime viver de ponto e contraponto, respeitando a opinião de quem não concorda. Manifestá-la, então, é um direito. E é para mostrar este direito que, entendo, milhares foram às ruas. Os vândalos, os provocadores, não estão interessados na democracia, não querem ver mudanças, de verdade. O que pretendem é criar o caos, provocar confusão e, com isso, tirando o foco do que realmente importa: o desejo de mudança de uma juventude que, ao manifestar-se, torna-se porta-voz de milhões e milhões de concidadãos.

A questão, no final, é: a quem eles servem? À democracia, certamente, não é. E também não visam à mudança, pois o confronto não leva a ela. Não sei qual é o propósito político destas pessoas que, de modo mais do que evidente, destoam da grande maioria. O que sei é que as manifestações são legítimas. E os vândalos, ao procurarem o confronto e partirem para o quebra-quebra, estão, ao mesmo tempo, buscando desqualificar a manifestação e o desejo de mudança de todos nós.