TRABALHO, SUJO MAS ESSENCIAL PARA TODOS

O trabalho que não vemos – ou fingimos não ver – e que é essencial, mas muito longe do nosso padrão de ambiente condicionado

Trabalho sujo: um exemplo são os que recolhem o lixo

Como é o seu trabalho? A pergunta, que não é assim tão comum, deveria ser corriqueira, pois sempre estamos buscando informações sobre o que as outras pessoas fazem. Mas, neste caso, o mais comum é perguntar: O que você faz? Estamos, aqui, no nível do que comumente se chama de “trabalho intelectual”, entendendo que é, quase sempre, em ambientes refrigerados e com tarefas que contam com a ajuda da mais moderna tecnologia. É isso o que ocorre agora que estou escrevendo este post. Mas, pense bem, isto é a norma? Talvez no nosso meio, sim. Mas fora dele existem tantos outros tipos de trabalhos e, em muitos casos, sequer sonhamos com o que as pessoas fazem para viver.

É interessante que não nos despertemos para isso, talvez devido à acomodação que a própria atividade nos traz e que, no final, nos deixa pensando que todo mundo tem trabalho idêntico ao nosso. Isso está longe de ser verdade e já serviu, até, para uma série na Tv a cabo, que no Brasil se chama “Trabalho Sujo“, que apresenta tarefas bem desagradáveis, mas que muitas pessoas fazem. Afinal, este é o trabalho delas. É o caso, por exemplo, de um amigo de minha filha que vivendo nos Estados Unidos ganhava a vida lavando cadáveres, preparando-os para os funerais. Esta é uma tarefa que existe aqui no Brasil, também, mas da qual não tomamos conhecimento e nem falamos.

O que me chamou a atenção para o assunto foi uma matéria de uma jornalista australiana que relata o encontro com uma profissional que faz este tipo de trabalho, limpando casas em que as pessoas suicidam e fazendo outros tipos de limpezas e arrumações que, do nosso ponto de vista, vai além do trabalho sujo. É o modo que arrumou para ganhar a vida e, nele, executa tarefas que ninguém mais quer fazer e que deixa o lavar cadáveres como uma das mais agradáveis. Ah, dirão, é lá longe do outro lado do mundo, muito longe daqui, de onde estou. Ledo engano. Aqui também se morre, se suicida, se suja e sempre existe alguém para limpar. Se não é da família, é algum profissional que aceita encarar a tarefa.

Um dos aspectos que a matéria expõe – válido também para nós, brasileiros – é que se temos Polícia, Bombeiros e Médicos envolvidos, por exemplo, em um acidente, a eles cabem dar atendimento, esclarecer, socorrer. O lado da limpeza, no entanto, não lhes cabe nem é a tarefa deles. Isto tem de ser feito por outros e, neste caso, apresenta-se mais um “trabalho sujo”. O que ocorre, na verdade, é que lá fora, longe dos ambientes condicionados, existem milhões de pessoas que fazem coisas que não imaginamos para viver. Do nosso lado, na redoma de vidro em que vivemos, achamos que o trabalho se executa em um computador, com o uso do celular e com programas que nos ajudam nas tarefas.

Isso é verdade, sim, mas não para todos. E constatar esta realidade é fácil, bastando olhar para a rua e ver o gari que faz a limpeza ou o recolhimento do lixo produzido nos belos prédios em que vivemos, que estão bem visíveis. Quando aos outros trabalhos sujos, eles podem não aparecer, mas existem. E é deles que milhões de pessoas, no Brasil e no mundo, sobrevivem. Fazem uma atividade silenciosa, que não traz status social e que não lhes traz reconhecimento, mas lhe garantem a sobrevivência. Assim como nós, são trabalhadores e talvez executem, no final, tarefas mais essenciais que a nossa.

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Sobre o Autor

Contador de Histórias Reais, jornalista, especialista em texto, edição de livros, consultoria e assessoria de imprensa

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