PROSTITUIÇÃO, O FIM DE UMA HIPOCRISIA

Polêmica sobre outdoor expõe hipocrisia da sociedade sobre a prostituição, uma prática conhecida de todos

Prostituição e a polêmica do outdoor no Espírito Santo

A prostituição, seja que nome se lhe dê, é uma das mais antigas atividades do mundo e ao longo da história tomou as mais variadas configurações, indo das cortesãs dos reinos medievais e da renascença aos prostíbulos, comuns no início do século em todo o Brasil, marcados, às vezes, pela segregação, em locais mais distantes da “boa sociedade” ou em bairros periféricos, marcados por casas com luzes vermelhas. Aqui no Espírito Santo e mais especificamente no município da Serra tivemos um bairro que nasceu e cresceu a partir da prostituição, com casas famosas, que os “homens de bem” frequentavam. Era a época que não existiam motéis, algo que é único no mundo, pelo menos como os temos.

Este assunto não é novo neste espaço. Temos alguns posts publicados que o abordam, desde o surgimento de um eufemismo até a vida imitando a ficção. Há alguns anos, a mais velha profissão do mundo tomou um novo rumo e o que, antes, era chamada de “putas” – no sentido mais depreciativo possível – passou a ser conhecida como “garota de programa”. Elas estão em todas as partes e segmentos e podem ser facilmente encontradas através dos chamados “sites de relacionamento” ou nos classificados dos principais jornais, apresentando-se como “acompanhantes”. Deixaram de ser simplesmente prostitutas e transformaram-se em “modelos”, mas na verdade a prática é a mesma: a venda do corpo com fins econômicos. Todo mundo sabe disso, mas finge que a prostituição não existe e se indigna ao ver as “velha” – no sentido do termo, não da idade – “rodando a bolinha” em uma rua, à noite, à procura de clientes.

Mas por que tudo isso? É simples. Há alguns dias, os dois principais jornais do Espírito Santo trouxeram a notícia da retirada de um outdoor. Em um desses jornais, A Tribuna, aparecia uma bonita loura, chamada de Ana – que não é seu nome verdadeiro – reclamando que estava sendo discriminada. O outdoor trazia uma foto da jovem exibindo um belo corpo e dando um endereço da internet, de um blog em que, segundo ela própria disse, relata os seus encontros com os “clientes”, buscando apimentar a relação e despertar o interesse de outros. Ah, sim, como podem ver, o outdoor era de uma garota de programa e, na matéria, ela admite claramente isso, assumindo que o que faz é prostituição e dizendo que faz uma atividade como qualquer outra e não tem de ser discriminada por isso, pondo abaixo a hipocrisia da sociedade, que tem integrantes que usam os seus “serviços”, mas que não quer ver ninguém falar da atividade.

Tornada pública, a questão acabou em polêmica e, mais que depressa, a empresa – por pressão não se sabe de quem – que havia retirado o outdoor se comprometeu a recolocá-lo. Inicialmente, dizia-se que a foto explícita da garota iria mudar, mas depois, não. A mesma placa foi colocada, mas em local diferente. Ela havia pago a exibição por uma quinzena, como é praxe no mercado, e sua “propaganda” voltou a ser exibida, com a recolocação em um local de grande afluência, mas diferente do primeiro. Qual a lição de tudo isso? A posição da sociedade sobre prostituição de um modo geral e das “garotas de programas”, em particular, é hipócrita. Fingir que o problema não existe, não faz com que desapareça. Se há oferta é porque há procura. Não haveria garotas de programa se não existissem clientes, alguém disposto a pagar, como no caso da moça do outdoor, quase 400 reais por atendimento em um motel.

A matéria expôs a hipocrisia da sociedade e revelou a coragem de alguém que, de público, assumiu o que milhares de outras garotas fazem, escondendo da família, dos amigos, da própria sociedade, temendo que sejam discriminadas. Pessoalmente, não aprovo o sexo pago, mas acho que é um ato civilizado reconhecer que ele existe e, até, ir além, tomando o caminho de países como Holanda e Alemanha que legalizaram a atividade. O preconceito, a hipocrisia e a “ilegalidade” – no Brasil, o que é ilegal é a exploração da prostituição, não ela em si – acabam contribuindo para uma atividade clandestina, muitas vezes em detrimento das mulheres.

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Sobre o Autor

Contador de Histórias Reais, jornalista, especialista em texto, edição de livros, consultoria e assessoria de imprensa

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