Antiga banca de jornal, ponto de encontro nas cidades

AS BANCAS DE JORNAIS E O HÁBITO DE LEITURA

Já nas bancas, para quem não viveu a época áurea das bancas de jornais, um local que estimulava o hábito de leitura e que oferecia diversidade de conteúdos e opiniões, fossem através dos diários locais e nacionais que vendiam ou das inúmeras outras publicações que expunham – livros, revistas, fascículos, etc. Um ótimo local para criar hábito de leitura.

O documentário exibido pelo Discovery, na TV paga, me trouxe muitas recordações. Fui durante anos cliente da Banca do Natal, que ficava na Praça Costa Pereira, em Vitória. E fui um cliente assíduo e fiel. Passava nela quase todos os dias, vendo as novidades, e pegando os jornais que, à época lia, notadamente os de fora do Estado.

PARA EMBRULHAR PEIXE

Além de levar a informação, muito menos disseminada que hoje, quando tudo está na internet, encontrava outros fregueses, batia papo, ouvia histórias e acompanhava o bom humor do Natal, um dos personagens da cidade na época. Infelizmente, ele se foi cedo, depois de ter deixado a banca.

Uma das histórias, era sobre os jornais de domingo, volumosos, não só devido à publicidade, mas ao conteúdo especial que ofereciam, como longas reportagens e assuntos especiais, cadernos extras, etc. O Natal era um gozador e quando alguém chegava perguntando, por exemplo, se tinha o Estadão – jornal Estado de São Paulo – ele perguntava:

– Por que você que o jornal, vai embrulhar peixe?

Quem ouvia, ria com ele e o freguês, às vezes, não entendia a brincadeira. Na época, jornal velho ou lido era um dos principais meios de embrulhar as coisas e as edições dominicais propiciavam vários embrulhos, principalmente com o Estadão, que tinha centenas de páginas. O Natal tinha não só o jornal, mas vários outros de fora e, na época, os quatro diários de Vitória.

PARA SOBREVIVER

O mundo mudou, as bancas mudaram como muito bem mostra o documentário. Ele usa depoimentos de antigos banqueiros, que ainda continuam em atividade, e faz o contraste entre o ontem e o hoje. Nos tempos áureos, pilhas enormes de jornais se acumulavam na banca. O jornal A Gazeta, de Vitória, onde trabalhava, chegou a vender mais de 100 mil exemplares, para se ter uma ideia.

Hoje, os jornais ainda resistem, a maioria deles, precariamente. As vendas caíram, assim como a publicidade, que os sustentava. Ainda existem revistas, mas elas seguem o mesmo destino. As bancas se transformaram, como mostra o documentário. Viraram um shopping de rua.

Era o único jeito de sobreviverem.

Fazendo pão - Um guia para iniciantes com receitas testadas

A MINHA JORNADA DOS PÃES EM UM EBOOK

Fazendo pães, com receitas testadas e aprovadas de pães, bolos e mais

Sempre gostei de pães, mas nunca, até o início da pandemia do novo coronavírus, havia pensado em eu mesmo fazê-los. O isolamento social acabou mudando minha atitude e com a ajuda do meu filho, Fábio, fiz o meu primeiro experimento. No final, saiu um pão não tão belo, nem tão gostoso. Mas gostei do experimento e continuei.

Comecei com pães mais simples, com fermento biológico. Tentei, em seguida, o fermento natural, criando o meu próprio a partir de uma receita obtida no YouTube. Foi preciso paciência, mas ele floresceu e o usei para o meu primeiro pão de fermentação longa. Novamente, ele não ficou bonito, mas ficou gostoso. Foi um incentivo a mais para continuar.

BOLOS E PIZZAS

Após os pães, meu próximo passo foi fazer bolos. Aventurei-me pelas pizzas e por produzir, a partir do descarte de fermento natural, biscoitos para o lanche da tarde. Aos poucos fui me aprofundando no caminho do fazimento de pães, aprendendo, buscando saber mais e com o aprendizado, substituindo os pães que comprávamos pelos feitos em casa.

Hoje, tenho prazer em fazer pães. Eu os planejo com antecedência, variando um pouco, e os faço para o nosso consumo diário, seja no lanche, seja no café da manhã. Desde que comecei as idas à padaria e ao supermercado para comprar pães acabaram. Temos um produto mais saudável – sem componentes químicos – e mais gostoso.

Na minha caminhada de aprendiz de padeiro não deixei de lado os pães com fermento biológico, que são mais rápidos de fazer, mas tenho dado preferência aos de fermentação longa, que usam o fermento natural que eu próprio criei.

GRÁTIS E PARA COMPARTILHAR

É esse caminho, que começa com a tentativa do primeiro pão e chega a tê-lo feito artesanalmente, substituindo que comprava fora, que mostra Fazendo Pães com Receitas Testadas. Procurei, dentro do próprio espírito do pão, que é compartilhar, recheá-lo com o que descobri sobre o fazimento de pães.

O e-book, que é grátis e feito para ser compartilhado, trata de fermentos, fermentação longa e curta, criação de fermento natural, técnicas para conservar o fermento natural e refrescá-lo, sempre que for fazer um pão, utensílios que o irão ajudar a trabalhar a massa, receitas e algumas indicações de locais onde pode obter receitas e mais informações sobre como fazer seus pães.

Se ficou curioso ou quer saber mais sobre como fazer pães, clique aqui, baixe o e-book e aproveite.

O novo é igual ao velho normal em Vila Velha e na pandemia

O NOVO É IGUAL AO VELHO NORMAL

Com o abrandamento das regras de isolamento social e, sobretudo, com a abertura do comércio, bares e restaurantes, a Grande Vitória, no Espírito Santo, está mostrando que o “novo normal”, tão anunciado devido ao coronavírus, está exatamente como o “velho normal”. Para constatar basta uma saída às ruas.

Aparentemente, o capixaba – e o brasileiro, tomando-se como base notícias de outros Estados – “normalizou” a pandemia e a incluiu na sua rotina, deixando de lado os cuidados recomendados pela ciência. Sim, a infecção está diminuindo em Vila Velha, onde vivo. Mas ela não acabou e, nos dizem os especialista, a única perspectiva de controlá-la é a vacina.

Ao que parece a ciência e suas recomendações não afetam a maioria das pessoas. No final de semana, o que vi no calçadão da Praia da Costa, em Vila Velha, foi o movimento normal de um domingo, fora dos dias de verão. A praia estava cheia e o calçadão, também. O número de pessoas usando máscaras era insignificante em relação ao total e os ajuntamentos eram uma constante.

SEM PANDEMIA

Pessoas idosas, sem máscaras, estavam cercada por outras, jovens, que também não as usavam. Adultos e crianças se misturavam nas areias da praia, sem máscaras. Entre os que, como eu, caminhavam, poucos usavam máscaras. Senti-me como se a pandemia e a infecção pelo coronavírus não existisse.

Pelo que tenho visto, ouvido e lido as pessoas só usam máscaras quando são obrigadas. É o caso da entrada em um comércio. Vi isso acontecer outro dia, em uma padaria, enquanto esperava minha esposa. Um casal vinha pela rua e o homem estava sem máscara. Ao chegar à padaria, enfiou a mão no bolso, retirou e colocou a máscara. E o fez por haver um controle na entrada, que não permite que se entre sem o uso das máscaras.

Ainda no domingo, caminhando por um circuito alternativo, no Morro do Moreno, encontrei um bom número de automóveis estacionados e próximos deles, em uma pousada, uma boa concentração de pessoas. Cuidados com a infecção e a Covid 19? Nenhuma. Estavam “curtindo” o final do dia, despreocupados com a infecção ou, mesmo, se assintomáticos, pudessem infectar outras pessoas.

IGNORANDO MORTES

Como eu e minha família nos prevenimos e continuamos nos isolando e quando saímos adotamos todos os protocolos de proteção, fico surpreso com o comportamento das pessoas. Elas estão ignorando os 4 milhões de infectados no Brasil e as mais de 120 mil mortes. Nem a infecção, nem as mortes pararam. Mas foram “normalizadas”. Entraram na rotina e deixaram de incomodar ou mesmo amedrontar as pessoas.

E não é o caso do comportamento desafiador dos primeiros dias, daqueles que chamavam a pandemia de “gripezinha” e achavam que a cloroquina iria salvá-los e impedir que se infectassem. Agora, é um comportamento mais geral, que envolve todas as idades e que nos traz a sensação de não preocupação com a infecção pela maioria.

É um comportamento que não sei explicar. Torço para os que não tem cuidado não se infectem. Mas eu e minha família vamos continuar nos prevenindo e tomando os cuidados necessários para evitar a infecção, à espera da vacina, essa sim, que irá preveni-la.

O horizonte e sua importância nos dias de quarentena

A VISTA DO HORIZONTE NOS DIAS DE QUARENTENA

Perto de quatro meses de quarentena, saímos de casa pela primeira vez e passamos um final de semana – eu e minha esposa – em Guarapari, onde temos um pequeno, mas funcional apartamento. A mudança me trouxe uma reflexão sobre a importância de se ter o horizonte à vista nestes dias de isolamento social.

Especificamente no meu caso, além do horizonte aberto, também o mar representa um fator importante. Sou dos privilegiados que tem os dois. O mar e o horizonte estão à frente, visíveis das minhas janelas, no apartamento onde vivo. É diferente em Guarapari. Lá não tenho as mesmas vistas, mesmo estando muito próximo do mar. O horizonte, no entanto, está coberto por outros edifícios e a visão que tenho dele é da rua, com a vida resumindo-se ao que nela acontece.

MUNDO ENCOLHE

Se o nosso mundo já encolheu e por estarmos em recolhimento passamos a vê-lo do lado de fora, ao perder o horizonte ele fica ainda menor, reduzido ao espaço que ocupamos e só acessível mediante a tecnologia. E foi assim que descobri como ter o horizonte à frente é importante para superar os dias de confinamento voluntário.

Se olharmos bem, de certa forma, vivemos todos encaixotados, seja em apartamentos, seja em casas. Abrimos mão dos espaços abertos em busca de proteção individual e para nossas famílias e grupos. Os edifícios praticamente tornaram-se os locais preferidos de habitação e se proliferaram, como vemos em praticamente todas as cidades do mundo.

E foi essa proliferação que nos tirou o horizonte. Na maioria dos casos, quem olha pela janela vê, do outro lado, mais janelas, mais edifícios, limitando sua visão e concentrando-a na rua à frente, pelo menos para os que moram de frente para ela. Uns poucos, como eu, tem uma visão mais ampla, que não se restringe ao edifício em frente e, no meu caso, o mar está do outro lado da rua e o horizonte, à sua frente.

ENCOLHE E EXPANDE

Confesso que nunca tinha pensado nessa questão. Também nunca imaginei que ficaria por quase cinco meses seguido em casa. Antes da pandemia, era algo inimaginável. Podia sair às ruas, caminhar, andar à toa e não ter de me preocupar com um vírus que tomou o mundo de assalto e transformou o Brasil em um imenso cemitério.

Fugindo, não, evitando-o, me recolhi. E ao fazê-lo, o mundo, de certa forma, ficou do lado de fora. A vida, como a tinha antes, ficou à espera. De início, achei que seria um recolhimento rápido. Estava enganado, assim como me enganei sobre a volta ao “normal”. E foi com o passar dos dias que fui me dando conta de uma profunda mudança no mundo, não só em relação à visão que tinha dele, mas do comportamento humano.

Não sou psicólogo, mas acho que o afã de parte dos brasileiros em irem para a rua tem a ver com o fato de vivermos encaixotados, sem horizonte visível, o que estreita nosso mundo. É uma visão sem base científica, mas foi ao não ter uma visão mais ampla do “lado de fora” que descobri como ter o mar ao lado e o horizonte à frente é importante.

Hoje, tenho uma certeza: os dois tornaram meus dias mais fáceis, deixando o isolamento mais aceitável, e vão me ajudar a esperar o que virá no amanhã.

Negação? Praia e pessoas sem usar máscaras, como se não se importassem com a Covid 19

 SERÁ NEGAÇÃO? OS BRASILEIROS E A COVID 19

O isolamento social e a prevenção são, segundo especialistas, as duas medidas mais eficazes para evitar a Covid 19. Parece que uma boa parcela dos brasileiros não crê nelas, como constatei nos dois dias que estou em Guarapari, Espírito Santo. A cidade não está cheia, mas ao caminhar no calçadão o que vejo são pessoas se portando como se não houvesse uma pandemia.

Será negação? Não sei. O que sei é que, de certa forma, fico revoltado ao voltar timidamente às ruas tomando todos os cuidados e vejo dezenas, centenas de pessoas que não estão nem aí. São crianças, jovens, adultos e idosos. Não há distinção de idade, de cor de pele e nem de origem. Existem os que chegam nos “carrões” e os que, dá para ver, são mais humildes.

MÁSCARAS, NÃO

O que todos tem em comum é o fato de não usarem máscaras. Distanciamento? Pra que. Formam-se pequenos grupos, às vezes com 10 pessoas, que conversam animadamente, riem alto e tocam e ainda olham quem usa máscara como se fôssemos, nós, os idiotas.

Não sei – e na verdade não estou interessado – em saber o que essas pessoas pensam. O que sei é que ao se portarem de forma irresponsável, se colocam em risco e também elevam o risco de quem se cuida. Aliada a esse grupo existe outro, que mostra alguma preocupação, mas levam as máscaras na mão, como se o objetivo fosse protegê-las.

É um grupo bem menor, mas faz concorrência aqueles que tem máscaras no queixo ou no pescoço. O fato é que, no meu cálculo, das pessoas que estavam no calçadão, pelo menos 70 por cento não estavam usando máscaras ou pretendendo usá-las sem o fazer. Fico imaginando como seria esse cenário se estivéssemos em pleno verão, com a praia lotada.

NÃO SE IMPORTAM

No Espírito Santo, os indicadores dizem que a pandemia está estabilizada, mas o Estado tem tido cerca de mil infectados comprovados diariamente. O contágio está baixo, mas com o descuido de quem é daqui ou quem vem de fora, pode acontecer o mesmo cenário dos Estados Unidos, com uma forte segunda onda de infecção. Lá, como no Brasil, a pandemia está fora de controle.

Será que as pessoas não se importam com quase 90 mil mortes? Se formos julgar pela atitude delas, a resposta é não. Se individualmente não tem medo da Covid 19 ou não se importam de contraí-la, deveriam pensar nos outros – família, amigos, etc. Mas, na minha opinião, o egoísmo de pensar que é o centro do mundo faz com que sejam, não descuidados, mas de propósito desafiadores, achando que são imunes.

O certo é que, não importa como eles ajam, se são a maioria da população, como mostram os índices de isolamento social, e se se julgam imunes: Eu vou continuar me prevenindo. Por mim, por quem está ao meu lado, por meus familiares, por amigos e, também, por quem não conheço.

CONFIAR NA CIÊNCIA

Assim como não quero ser infectado, não desejo que ninguém o seja. E, no meu caso, prefiro confiar na ciência, deixando de lado as hidroxicloroquinas, as invermectinas e outros remédios que, comprovadamente não tem efeito. É como afirma um infectologista em evidência: essas drogas não curam a Covid 19 e são tão efetivas quanto jujubas.

Já passando dos 132 dias, vou, se necessário, chegar aos cinco meses ou mais de isolamento social. E vou seguir em frente, até que seja necessário. É uma resolução que, aqui em casa, tomamos em conjunto.

Queremos distância do coronavírus. E vamos mantê-la, nos resguardando.

Volta à rua e caminhada pelo calçadão após 127 dias de quarentena

NA RUA APÓS 131 DIAS DE QUARENTENA

Qual é a sensação de estar na rua após 131 dias de quarentena? Não diria medo, mas apreensão, sim. Depois de todo esse tempo, foi a primeira vez que, efetivamente, voltei às ruas e, para dizer a verdade, não literalmente a elas, mas para uma caminhada pelo calçadão da Praia do Morro, em Guarapari.

Até então, as poucas saídas de casa sempre envolveram carro. Em algumas delas, nem cheguei a sair dele. Noutras, sai rapidamente para fazer exames e em duas outras oportunidades. O tempo fora foi mínimo e, do veículo até o local, dei poucos passos. A caminhada foi diferente.

COM E SEM MÁSCARAS

Ao sair de casa tive que caminhar dois quarteirões até chegar à praia e o calçadão. É o que chamaria de reinauguração das caminhadas, feitas na Praia da Costa e, quando estamos em Guarapari, no calçadão da Praia do Morro, onde fica nosso apartamento.

É inverno  e as ruas e o calçadão estão vazios. Mesmo assim, a insegurança toma conta, principalmente pelo número de pessoas que não usam máscaras e se portam como se não houvesse uma pandemia que, no Brasil, já infectou cerca de 2,5 milhões de pessoas pelos dados oficiais e já matou mais de 85 mil.

Mas há, de outro lado, muita gente de máscaras, que vão desde pessoas de mais idade às crianças. Não sei como seria em um dia de verão, mas tenho certeza que o número de pessoas seria muito maior. E que este aumento iria me desestimular de fazer o que fiz.

DO LADO DE FORA

Foi uma caminhada rápida com uma parada para comprar pastéis. Saímos e voltamos para casa, caminhando cerca de 5 quilômetros, o que é um bom trecho, mas é menos do que caminhávamos antes do início da pandemia. Mesmo assim, é diferente, já que não estão restritos ao espaço da casa, mas “do lado de fora”.

É este lado de fora que vinha passando pela nossa janela no dia a dia. De certa forma, já foi um desafio deixar Vila Velha e vir para Guarapari. E nada foi planejado. Surgiu a ideia e decidimos que, sim, poderíamos fazer isso, buscando manter a nossa segurança no nível mais alto.

Talvez seja o primeiro passo para o que será, amanhã, normal. O certo é que nos deu satisfação estar ao ar livre, ouvindo as ondas quebrarem e sentindo o vento marinho. E ainda fomos brindados com um belo por do sol, recompensa pela “ação intrépida” que tomamos – o plural refere-se à companhia de minha esposa.

E DEPOIS, COMO SERÁ?

Não sei – e ninguém sabe – como será o amanhã. Mas o que fizemos pode ter nos dado uma referência de como teremos de nos portar no futuro. Pelo menos até que haja uma vacina contra a Covid 19, permitindo que nos movimentemos sem os cuidados que estamos tomando hoje.

O que penso é que, mesmo com a vacina, os hábitos terão mudados e estaremos muito mais preocupados com a preservação da saúde. Até porque, como sabemos, existem aqui no Brasil e lá fora milhões de pessoas que não se importam, nem com a própria vida, nem com a dos outros.

Ao cuidarmos de nós, estamos também ajudando a cuidar dos outros.

O mar é um grande caminho e observo sua movimentação a cada dia de minha varanda

OS CAMINHOS DO MAR E OS DIAS DE QUARENTENA

O vai e vem do mar, o barulho das ondas, as suas ondulações e a mudança de cor que as várias fazes do sol lhe provocam, me fascinam. Nestes dias de quarentena e isolamento tenho mais tempo de observá-lo e uma das coisas que me dei conta é que o mar é, também, caminhos, longas ou curtas “rodovias”, que levam aos mais diversos lugares do mundo.

Nos últimos quatro meses, durante o dia, sempre tiro algum tempo para, à varanda, ficar observando o mar que tenho à minha frente. Pelo canal estreito, que circunda a ilha de Vitória, a capital do Espírito Santo, passam todos os tipos de embarcações, dos navios atulhados de contêineres aos pequenos barcos que quase não se podem ver quando estão mais distantes.

VAI, VEM E VOLTA

O vai e vem ocorre em todas as horas do dia – e também à noite. É o navio grande que chega ou parte, o pequeno barco de pescadores em busca do peixe que sustenta suas vidas, a lancha que transporta práticos, caiaques, jetesquis, rebocadores, chatas e todos os tipos de barcos. No final de semana, ainda temos as lanchas de lazer, que cortam as águas e se aproximam das praias.

Se estamos em casa – e, no meu caso, há mais de quatro meses – o que se pode constatar da observação da via marítima é que o mundo e a vida não está à espera de muita gente. Uma parcela significativa da população continuou em atividade e o movimento de embarcações é apenas um dos pontos em que pode ser observado.

PRIVILÉGIO DO ISOLAMENTO

No contexto em que vivemos, ficar em casa em isolamento é, antes de mais nada, um privilégio. A cada dia milhões de pessoas saem às ruas e se colocam em risco, não por não temerem a infecção pelo Covid 19, mas por necessidade. São os mais diversos tipos de trabalhadores, começando pelos chamados “essenciais”, nos quais se incluem os profissionais de saúde.

Tirando a atenção do mar e voltando-a para a rua, o que vejo são pessoas que, mesmo podendo evita-lo, decidiram correr o risco da infecção pelo Covid 19. São aqueles que, de alguma forma, estão negando a realidade, lixando-se para quem está próximo ou que se julgam imunes e imortais. Estes, do meu ponto de vista, não são cidadãos. E, como todos sabemos, também temos milhões deles no Brasil.

OCUPANDO O TEMPO

Este último gênero de pessoas tem o meu desprezo. Eles não se importam com a vida humana, nem a deles. Não tem empatia. Não pensam no coletivo. Julgam-se “donos do mundo”. Vivem em um mundo à parte, em uma ilusão e, nela, não há pandemia, não há Covid 19, não há hospitais lotados e, no caso do Brasil, 80 mil mortes oficiais provocadas pelo novo coronavírus.

Mas voltando à via marítima, a observação do mar é também uma forma de ocupar parte do tempo. Como são os barcos? O que eles trazem? O que estão buscando? Como é a vida de quem neles trabalha? São algumas das questões que me vem e fico observando os detalhes de cada um deles.

Não chega a ser uma rotina, mas sentar-me à varanda e observar o mar me relaxa e me dá ânimo para enfrentar novos dias de isolamento.

Quatro meses de isolamento social e como eles passaram

O DIA DOS QUATRO MESES DE ISOLAMENTO SOCIAL

O dia amanheceu frio, nublado e chovendo, atípico para o clima da Grande Vitória, e com ele veio um marco: hoje é o dia dos quatro meses de isolamento social. A tal da “gripezinha” já infectou oficialmente 2 milhões de brasileiros e já matou quase 80 mil – nos dois casos, os números são maiores. Nesse tempo, tenho visto o mundo do lado de fora.

Como é ficar em casa dia após dia, chegando a uma contagem que pode ser feita de várias maneiras? É difícil de explicar. Somos gregários e isso nos leva a querer companhia, conversar, rir, matar o tempo, andar por onde desejamos e, sobretudo, fazer tudo isso com tranquilidade. A pandemia não nos permite fazer nada disso, a não ser por meios tecnológicos, que não é a mesma coisa.

JUNTO COM A ESPOSA

Como todo mundo, tenho vontade de sair, ir para o calçadão, fazer coisas, encontrar amigos para um café e jogar conversa fora. Mas nada disso foi feito em 120 dias. Nas vezes que sai de casa – e foram muito poucas – foi para fazer exames e ir a um cartório, dar uma procuração para a venda de um veículo. No resto do tempo, estou em casa, eu e minha esposa.

O que faço? Escrevo, leio, vejo programas que me interessam na TV a cabo, no Netflix ou no Prime. Tenho usado o Youtube para musicais e apresentações ao vivo. Estou trabalhando em um website e em dois diferentes livros, um sobre a pandemia, a partir de textos que tenho publicado e outro, quase parado, sobre a vida em uma redação de jornal.

Tenho me exercitado, fazendo no mínimo 30 minutos diários de exercícios, incluindo os treinos que minha treinadora faz on line. Nos exercícios estão incluídas também as caminhadas feitas dentro de casa. Acompanho o noticiário nacional e internacional através da Internet e leio outros temas variados, que são do meu interesse, através do aplicativo Feedly. E tenho participado mais das atividades da casa.

DESEJO DE SAIR, RAZÃO PARA FICAR

Existem horas em que me angustio, penso em sair, seguindo o impulso, mas o refreio, adotando uma postura mais racional. Estou em um exílio voluntário que me impôs uma radical mudança de estilo de vida. O que ele me trouxe foi descobrir as pequenas coisas e que podemos levar a vida com muito menos. O isolamento está nos ensinado a nos concentrar mais no ser que no ter.

De certa forma estou repetindo o que sempre fiz: trabalho, lazer, atividades físicas, entretenimento, leituras, etc. Só que estão sendo feitas em uma nova perspectiva. E tenho o privilégio de fazer isso em uma casa confortável, que me oferece todas as facilidades da vida – conquistas ao longo do tempo.

Ah! E por fim tenho feito pães, uma atividade nova, que descobri durante a pandemia. Ela tem me ocupado o tempo e me dado prazer. Além disso, tem me ensinado paciência e a ser melhor observador para não errar no que estou fazendo, ver a massa se desenvolver e o pão ser assado. Às vezes, é mais rápido. Noutras, bem mais longa. Em cada uma das ocasiões, sempre há novo aprendizado.

TEMPO MUITO LONGO

Ao lado e ao mesmo tempo em que tudo ocorre, tenho pensado em como será o amanhã, como ele será mudado e como será nossa vida. Não sou o único, mas a verdade é que, hoje, ninguém sabe. Aliás, ninguém sabe como será o futuro. Como diz canção, ele “será do jeito que Deus quiser”.

Mas por achar que o futuro será diferente, é que tenho vivido o aqui, o agora, o presente, aproveitando-me das pequenas coisas, dos gestos carinhosos que recebo, do suporte que minha família me tem dado e, sobretudo, do indispensável apoio de minha esposa, companheira de uma longa viagem.

Não sei quantos dias mais este isolamento irá durar. O que sei é que estou vivendo uma experiência totalmente nova, que me fez mais participativo nas coisas da casa, mais observador, mais paciente e, tentando olhar para um lado bom, talvez saia da quarentena um pouco melhor que entrei nela.

Até que isso ocorra, vou continuar vivendo um dia de cada vez.

Pão caseiro de castanhas do Pará com uvas passas. Bonito, saudável e delicioso.

GASTAR O TEMPO AO FAZER PÃO SAUDÁVEL

Fazer pão caseiro e saudável, contrapondo-se ao industrializado vendido em padarias e supermercados, envolve um bom tempo de espera, bem maior do que trabalhando ingredientes e a própria massa. Cada pão é diferente e também são diferentes os tempos de espera, que envolve fermentação, descanso, preparação, pesagem dos ingredientes e manipulação da massa.

O que resulta de todo esse processo é um bom tempo ocupado, direta e indiretamente. Ao fazer o pão, você acaba monitorando o seu desenvolvimento. Esforça-se na hora de preparar a massa, inclusive nas sovas que podem chegar até 15 minutos e representa um bom exercício, proporcionando movimentação ao corpo e exigindo esforço de alongar, dobrar e tornar a alongar a massa, um sem número de vezes.

GLÚTEN E FERMENTAÇÃO

Estou aprendendo que estes tempos tem a ver, primeiro, com a formação do glúten, importante para o próprio pão, representando o que lhe dá ligadura e torna a massa final o que ela é. E vem, a seguir, a fermentação, que alguns chamam de descanso. São intervalos em que a massa, já misturada, cresce.

O que é interessante é que mesmo recorrendo a uma batedeira, por exemplo, para fazer a massa, chegar ao pão envolve uma série de outras coisas. É preciso preparar o forno adequadamente, escolher o tipo de vasilha em que o pão será assado e deixá-lo pronto para assar, acompanhando o desenvolvimento para que não fique cru ou queime.

ALGUNS ERROS E MAIS ACERTOS

Na trajetória de padeiro amador e caseiro, tenho cometido erros. É coisa de quem está aprendendo e incorporando técnicas que antes não dominava. Os erros, no entanto, para minha sorte não tem interferido no resultado final dos pães que tenho assado nos mais de 100 dias de isolamento social, quarentena ou o que quer que chamem.

Se há erros, também há acertos. E são eles que nos deixam satisfeitos e se revelam no final do processo de fazimento do pão. Eles começam a ser vistos na finalização e formatação da massa para o forno, vendo que ela está crescida e macia. O segundo momento é o do pão assando, quando o vemos desenvolvendo e ficando com bom aspecto. E o terceiro, após assado, quando é cortado e provado, revelando que, se houve erro, não comprometeu o produto final.

APRENDIZADO CONSTANTE 

O que fazer pão nos proporciona é um aprendizado constante. A cada tipo de pão, há uma série de ações que são diferentes das anteriores e muitas que são similares. E existe, ainda, o trabalho que vem antes e depois de começar a massa, assá-la e aproveitá-la. E também neste caso as coisas mudam dependendo do tipo de pão. Se tem mais ingredientes, são mais coisas por fazer, começando por pesar todos eles, de forma a que tenhamos, no final, a receita correta.

E por fim, para completar o processo, temos a limpeza de tudo o que foi usado, o que inclui as vasilhas, mas não só elas. É preciso limpar mesas e acessórios que foram usados na produção da massa. No final, medindo o tempo, um pão simples, com poucos ingredientes consome entre 4 a 5 horas, do seu início até poder parti-lo e apreciar.

Dá trabalho? Sim. Mas, pelo menos para mim e minha esposa, tem valido muito a pena. Desde que comecei o processo de fazer pão, não mais compramos pães em padarias ou supermercados. Comemos pães mais saudáveis e economizamos. E há o benefício adicional de ocupar o tempo.

Vale muito a pena.

Os dias estão mais limpos e o céu, mais azul, nos dias de quarentena

O SILÊNCIO E OS SONS DOS DIAS NA QUARENTENA

A quarentena e o recolhimento das pessoas estão nos trazendo maior silêncio e, ao mesmo tempo, nos permitindo ouvir os sons dos dias, aqueles que eram, antes, ofuscados pela rotina de trabalho fora, de saídas, de trânsito louco e de correria e estresse. Onde moro e estou em isolamento social os dias ficaram mais silenciosos.

Gosto de quietude, de prestar atenção ao que está à minha volta, mas a rotina de vida não me permitia fazer isso com a mesma intensidade que a quarentena está me proporcionando. Tudo começa ao acordar. Lá fora há uma sinfonia de pássaros e, no meio dela, um canto se destaca, chamando a atenção. Logo em seguida vem outro, tão ou mais belo que o primeiro.

OS SONS QUE SÃO DA CASA

Se há sons do lado de fora – e eles são muitos – também os há em casa. É o tique taque do relógio, agora bem mais audível que antes, o assoviar do vento Nordeste nas janelas e portas, o balançar das cortinas e um abrir da geladeira, de um armário, o som de um objeto que está sendo retirado ou colocado no seu lugar. Todos eles ficaram mais nítidos e a razão é que lá fora está mais silencioso.

E é por causa do silêncio que impera que dá para ouvir mais nitidamente os sons que o mar faz ao quebrar na praia. Pode parecer que são sempre iguais, mas não são. Dependendo do movimento das marés, eles ficam diferentes. Como diferem quando o mar está mais ou menos agitado. Para mim, é um barulho tranquilizador e relaxante e gosto muito de ouvi-lo.

MENOS CARROS E MENOS RUÍDO

Com parte da população em isolamento social, temos menos carros nas ruas e menos trânsito. Onde moro já é um lugar tranquilo, mas a movimentação de automóveis diminuiu e isso torna o local ainda mais silencioso. Em contrapartida, passei a prestar mais atenção no que ocorre do lado de fora e os diferentes sons e ruídos que cada veículo produz.

Com maior silêncio dá, também, para ouvir o latir dos cães que está nas residências à volta. E tal como todos os outros sons, cada um tem um latido e um uivar diferente. E o que notei só agora: em determinados momentos eles parecem estar fazendo um concerto, uivando ou latindo todos juntos. É como se estivessem conversando, com tons variados e variações nos latidos.

PEDAÇOS DE CONVERSAS LÁ FORA

Outro som que fica bem mais nítido vem das conversas. Ouço pedaços delas ao longe e quase posso repetir os diálogos que ocorrem em frente ao prédio onde moro. O tom de cada uma delas varia. Às vezes, é alguém que fala mais alto. Noutras, uma fala mais pausada. O fato é que, como a vida, elas são diversas, dependendo de quem fala, com quem fala e sobre o que fala.

E há ainda os sons dos barcos. Na pequena enseada em frente de casa existem vários barcos de pescadores. E deles vem o som dos motores sendo ligados e das partidas em busca do peixe que irão comercializar ou consumir. E por morar em uma enseada, temos, ainda, a saída de outros barcos – lanchas, jetesquis, etc. – e eles formam novos sons e ruídos.

UM MUNDO CHEIO DE SONS

Não posso dizer que foi uma descoberta, mas a quarentena devido ao coronavírus e o fato de ficar em casa muito mais tempo que antes me colocaram diante de sons que, com certeza, já existiam lá fora, mas que não tinha a oportunidade de ouvi-los. Agora mesmo estou ouvindo as ondas quebrando na areia.

O mundo é cheio de sons, alguns agradáveis, outros nem tanto. Se não os ouvimos é decorrência da vida agitada que todos levamos. Com a pandemia e o isolamento, o silêncio ganhou um espaço maior e, no meu caso, me permitiu prestar mais atenção nos sons que estão à minha volta. Gosto do maior silêncio e aprecio ouvir os sons dos dias.

E você, o que descobriu com o maior silêncio do isolamento social?