A amizade e solidariedade de um feirante tem nos ajudado nesses dias de quarentena

SOLIDARIEDADE E AMIZADE NOS DIAS DE QUARENTENA

A solidariedade e a amizade devem sempre ser destacadas. Nos dias de quarentena, elas se tornaram símbolo de quem se importa com os outros, principalmente com quem está em casa, em isolamento social. É o que acontece, no nosso caso – meu e de minha esposa – em relação a um dos feirantes de que somos frequeses.

Na verdade, é minha esposa que é freguesa. Eu não frequentava feiras e só conheço os feirantes de quem compra por referência. Mas, digo logo, pretendo mudar essa posição quando a pandemia nos deixar viver um novo normal, participando mais nas atividades de fora de casa, inclusive nas compras feitas na feira.

COMPRA E ENTREGA

E então, voltamos à amizade e solidariedade. É o caso do Bequinha, o nome pelo qual o feirante é chamado. Seu nome é uma homenagem a um craque da seleção da Alemanha e é Beckenbauer. Mas todos os chamam de “Bequinha”. Ele é o nosso fornecedor de queixos e de outros produtos e saiu-se, nos dias de quarentena, muito melhor do que esperava.

Assim que começou o isolamento social, a feira passou a ser uma não opção. Mas ainda precisávamos de produtos dela e foi aí que entrou o Bequinha. Ele se dispôs não só a entregar os produtos que vende e que minha esposa comprava para nós e para a casa da mãe dela, mas ir às outras barracas e comprar o que precisássemos.

UM PASSO ADIANTE

Funciona assim: minha esposa passa a lista do que precisamos e indica os vendedores onde compra os produtos. O Bequinha vai às barracas, compra os produtos, os separa e entrega em nossa casa. O pagamento do valor total é feito a ele, que repassa aos outros feirantes. A única coisa que precisamos fazer é fornecer a lista. O resto ele faz.

Quando ele se dispôs a fazer a feira para nós, eu e minha esposa conversamos sobre a melhor forma de agradecê-lo e a primeira decisão é que devia ser pago. Afinal, ele faz da feira seu meio de vida e deixá-la para nos atender, mesmo sendo do seu interesse devido à venda, é um serviço extra e, como tal, deveria ser pago.

Não funcionou. Quando minha esposa falou com o Bequinha, ele protestou e não quis conversa. Seu objetivo, declarou, era ajudar, já que não podíamos ir à feira.

MAIS CASOS

Se o Bequinha é, para nós, um dos símbolos da amizade e solidariedade, ele não é o único. O que descobrimos com a pandemia é que existem pessoas, em todos os nichos de fornecedores, que estão dispostos a atender quem está no isolamento. De início, começou meio devagar, mas com o prolongamento da obrigatoriedade de ficar em casa, a coisa deslanchou.

Hoje, nas listas do prédio e da família tem sempre um novo fornecedor que, tal como fez o Bequinha, anteviu na entrega domiciliar um meio de não só manter, mas melhorar o seu negócio. Aqui, em caso, temos vários fornecedores que passaram a atuar com vendas on line e entrega em casa, sem custo adicional.

PEQUENOS E LOCAIS

Um dos aspectos positivos dessa mudança, provocada pela pandemia do coronavírus e pela Covid 19, é que os nossos vendedores são pequenos e locais. Um dos meios mais eficazes de se impulsionar a economia de uma região é recorrer ao fornecimento local, comprando de pequenas lojas e pequenos fornecedores.

A tecnologia tem proporcionado a uma série de empreendedores meios de não só manter, mas expandir seus negócios. Eles estão no Instagram, pelo menos os mais sofisticados, e no WhatsApp. Estão em grupos ou individualmente e com uma ampla oferta de produtos e serviços.

Nesses dias de quarentena, causada pelo coronavírus e configurada pela Covid 19, o mundo está mudando e, junto com ele, nós também mudamos. E nada mais é evidente que o engajamento dos pequenos comerciantes no mundo virtual e na prestação de um serviço que atende o cliente e permite que não só sobrevivam, mas expandam.

Café da tarde com bolo de banana, castanhas do Pará e cacau, caseiro e primeira experiência

CAFÉ, BOLO DE BANANA E CACAU E OS DIAS DE QUARENTENA

Os dias de quarentena estão provocando mudanças de hábito e, no meu caso, um deles é o café da tarde, um cafezinho rápido que faz um pequeno intervalo no dia. Ele tem se repetido e trouxe outras novidades: o pão caseiro de fermento natural e, nesta semana, o primeiro bolo, feito com banana, castanhas do Pará e cacau.

Já disse aqui que me aventurei no pão caseiro, colocando de lado uma longa vida de não envolvimento com coisas da cozinha. Fiz meu primeiro fermento natural e o estou usando. O resultado, até agora, tem sido bom e estou muito satisfeito de ter tomado a iniciativa e, sobretudo, de ter um produto artesanal e mais saudável para o café da manhã e, eventualmente, para um lanche à tarde.

E VEM O BOLO

Há pouco mais de uma semana comecei a namorar a possibilidade de fazer o meu primeiro bolo. Minha esposa é ótima neste tipo de produção e, desde que estamos juntos, o que significa um bom tempo, é ela quem toma a iniciativa de fazer os bolos que, muito eventualmente, apreciamos em casa.

No meio de uma conversa, disse para ela, quando falou de um bolo de banana: “Separe a receita que, no meio da semana, vou fazer o bolo”. Ela, que tem uma caixa cheia de receitas, achou a do Bolo de Banana com Castanhas do Pará e Cacau, separou-a e me passou. Dei uma primeira lida para saber se tínhamos todos os ingredientes. Tínhamos.

O FAZER, SIMPLES

E veio, então, o dia de fazer o bolo. Primeiro, separar e medir os ingredientes, deixando-os prontos para a hora de começar o fazer. Descobri que o que chamam de “mise en place” é importante, pois tudo fica separado e torna mais fácil o preparo do pão e, consequentemente, também do bolo.

O fazer é simples. É só misturar os ingredientes na ordem determinada pela receita. Não tem segredo. Mas como era a minha primeira vez sempre fica a dúvida se estou fazendo certo e se, no final, o resultado será satisfatório. O preparo é rápido, de cerca de 20 minutos, do começo ao fim.

BOLO NO FORNO

Tudo misturado, o bolo vai ao forno. E vem uma nova expectativa: será que ele vai crescer? Será que vai ficar bom? Se dependesse só dos ingredientes, as duas respostas seriam sim. Fiquei um pouco ansioso e monitorei o forno. Já na primeira olhada, o bolo tinha crescido, o que me trouxe um sorriso. Relaxei.

Quarenta minutos depois, ele estava pronto. Ficou bonito, mas ainda restava saber se ficou gostoso. Demos – eu e minha esposa – um tempo para que ele esfriasse e, já no final da tarde, sentamo-nos na varanda para tomar o nosso café e apreciar o bolo. Quer saber? Ele ficou muito bom. Foi um experimento vitorioso e no meu horizonte já existem outros bolos.

MUDANÇA DE ROTINA

Fazer pães e bolo é um reflexo da mudança nas rotinas da vida que a pandemia do coronavírus e da Covid 19 nos tem trazido. Estamos – pelo menos uma parte da população – no chamado isolamento social. No nosso caso, podemos chamar de quarentena, que já está chegando aos 90 dias.

Em casa, além dos afazeres domésticos, de trabalho e de passar o tempo, precisamos de outras atividades e a mudança na dinâmica do dia a dia nos leva a procurar novas coisas para fazer. No meu caso, além de participar das atividades da casa, inclusive na cozinha, caminho e treino três vezes por semana.

Os dias de quarentena estão nos mudando e, sinceramente, nem eu, nem ninguém, sabe como será o amanhã. E há, ainda, uma outra coisa a considerar: se estamos no meio de algo muito grave, a pandemia, há o lado positivo de abraçar a mudança e mudar, mesmo que seja nos pequenos gestos.

AMIGOS AO REDOR DO MUNDO

A tecnologia, dizem alguns, é uma coisa fria, que isola e não aproxima. Neste caso, a Internet seria um meio de isolamento, não de aproximação. Será que é verdade? Não tenho como afirmar, mas posso citar um exemplo que vai exatamente em sentido contrário a essa assertiva. Estou falando do Amigo Oculto da Meire, uma brasileira moradora da Itália que, anualmente, promove um concorrido amigo oculto envolvendo blogueiros de várias partes do mundo.

E este é apenas um exemplo, pois tivemos, também, outro amigo secreto muito movimentado, promovido pela Euza Noronha, a Loba. Infelizmente, ele deixou de ser feito devido a outros afazeres e compromissos de sua promotora, mas enquanto realizado também aproximou blogueiros de várias partes do paí­s – e de fora dele – promovendo um intercâmbio que criou uma amizade virtual, muitas vezes transformada em amizade física, de proximidade.

O virtual, neste caso, acabou aproximando pessoas, criando amizades mesmo na distância. Concluído o ciclo do Amigo Secreto da Meiroca, nos comprometemos a fazer uma postagem coletiva que falasse dele, do sucesso alcançado e, no meu caso, de como me divirto participando, vendo as provocações, os comentários, fazendo mistério e criando expectativa de presente, de recebimento, de saber quem é o seu amigo. No de 2009, minha amiga, veio das terras frias da Europa, da Escandinávia e de um belo paí­s chamado Suécia.

Como ela própria se define, é uma brasileira morando na Suécia, hoje inundada de neve, que gosta de viajar, fazer amigos, ler, caminhar e de chocolates – quem não gosta, não é Célia?. Pois ela foi a minha amiga oculta e, confesso, durante todo o tempo não tive nem a mais remota suspeita de que fosse. Apenas consegui imaginar que não estava no Brasil, mas de onde era, nenhuma suspeita. Pois bem, confirmando que a preferência por chocolate, ela me mandou um, delicioso. Não tenho como mostrá-lo, pois já foi consumido há muito tempo. Ah! os presentes! Primeiro, ganhei o que pedi. Pode parecer estranho, mas foi o último disco do Michael Jackson, com as músicas que fariam parte do show que estrearia se não tivesse morrido. E de quebra, vieram belos postais da Suécia, além de um bonito e prático abridor de garrafas estilizado. Gostei muito, Célia e, de novo, obrigado.

Mas, no meu entender, o mais importante foi participar da brincadeira, criar novos vínculos conhecer novas pessoas. E tanto é assim que se neste ano houver um novo Amigo Secreto, já estou inscrito, hein, Meire.

Querem saber quem participou? Aqui vão os nomes: Meiroca, Carol Steedman, Sergio do NascimentoCiça, Dani Pontes,  RosaSôniaAnunciaçãoMirellaCeliaLuciana Marques, LaurinhaIvana Caracas, Lucy Lacey, Elvira Villani, Ju Moreira, Coquinho (Cabeça de Coco), Nade, Vivi, Mercia , Lu Delistri (Lucioneia), Elis Artz, Lino Resende, Ângela Coelho, DrikaBárbara (blog com senha), Elzinha.

Bom gente, agora estou mesmo de férias!

MEMÓRIA DA MINHA INFÂNCIA

Ainda hoje, no interior do Espírito Santo, grupo de pessoas reúne-se para ouvir e participar de uma manifestação cultural e folclórica que, ano após ano, se repete: a Folia dos Reis. No Estado há, até, um festival que mostra uma das coisas mais típicas do Brasil e que ocorre em Minas, Rio e São Paulo, também. A folia faz parte de minha infância e juventude e tudo o que vivenciei me voltou a memória em um sábado, quando ouvi novamente a música, a identifiquei e fui ver a apresentação de uma folia em uma feira de pequenos produtores rurais capixabas. De tradição portuguesa, a folia é um folguedo referência e reverência ao nascimento de Cristo. Do lado pagão, arrecada dinheiro e o utiliza, ao final dos 12 dias de andança, para uma festa. Como outras tradições do folclore, ela já não está tão presente, mas é preservada por quem participa. Cada um deles tem o compromisso de participar por sete anos seguidos. E com isso acabam passando a tradição para filhos e quem está próximo. Ver de novo uma folia foi bom. Lembrei minha infância e me revi, da varanda de minha casa, assistindo sua apresentação.

É MEU DIREITO!

Quantos de nós somos capazes de, diante de uma violação, dizer alto e em bom som a frase acima, título deste artigo? Não me arrisco com números, mas diria que poucos, bem poucos. A questão serve, e bem, para ilustrar a situação dos direitos humanos, 60 anos após a edição da Declaração Universal dos Direitos Humanos, adotada pelas Nações Unidas e que deveria ser de cumprimento obrigatório em todo o mundo.

“Todos os seres humanos nascem livres e iguais”, afirma a Declaração no seu primeiro artigo. Para uma parcela da humanidade isto é verdade, mas para outra, não. Homens e mulheres em várias partes do mundo ainda vivem sob o jugo dos outros, não tendo direitos e nem condições de defender sua liberdade. A situação é mais critica quando se trata de mulheres, que em muitas culturas e sociedades são relegadas a segundo plano, tratadas como pessoas de segunda.

“Todo o individuo tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal”, diz o artigo terceiro. E quantos morrem fruto da falta de saúde, de condições mínimas de sobrevivência. E quantos são dizimados pela violência e, a partir do seu exercício, perdem a liberdade. Vejam o caso das favelas no Brasil. Nelas, o cidadão obedece e o faz bem depressa se quer viver.

“Toda a pessoa acusada de um ato delituoso presume-se inocente até© que a sua culpabilidade fique legalmente provada” nos diz um dos itens do artigo 11. O que acontece, no entanto, é bem diferente e, de certa forma, somos todos culpados até prova em contrário. E isso tanto em países do Primeiro Mundo quanto dos mais pobres, estejam na África ou na América Latina. A norma parece ser: prender antes e acusar depois.

“Todo o individuo tem direito à liberdade de opinião e de expressão” diz o artigo 20, mas como expressá-la se os meios de comunicação são oligopolizados e todos, sem exceção, defendem os mesmos princípios. A liberdade de expressão, neste caso, é uma utopia, pois só funciona para quem se enquadra na opinião majoritária. Ser contra, no Brasil ou em qualquer outra parte do mundo, não só é difícil, como implica sérios riscos, às vezes até de morte.

“Toda a pessoa tem direito ao trabalho, à livre escolha do trabalho, a condições equitativas e satisfatórias de trabalho e à proteção contra o desemprego”, afirma o artigo 23. E o que a gente vê? Trabalho escravo ou semiescravo, condições degradantes, nenhuma proteção ao emprego ou ao trabalhador. Mais uma vez ficamos no sonho, indo na direção de um caminho que, hoje, é utópico.

selodh60

“Toda a pessoa tem direito à educação”, assegura o artigo 26 e ela deve ser gratuita, pelo menos no que corresponde ao ensino fundamental. No chamado primeiro mundo, isso ocorre. Nas outras áreas do planeta, não. Educação tem sido um privilégio de poucos, que a usam como forma de comandar a maioria, tirando-lhe o senso critico e a fazendo de massa de manobra.

Estes são apenas alguns tópicos da vasta proposição da Declaração. Se estamos há 60 anos e ainda não a implementamos é para desanimar, não? Não é. Aqui, vale o que disse Martin Luther King. É preciso ter um sonho e lutar para que ele se transforme em realidade, conquistando pouco a pouco o que almejamos. O sonho é um mundo pleno, com todos gozando plenamente dos seus direitos, sendo respeitados, recebendo educação, tendo melhores condições de vida, liberdade, segurança, emprego, saúde, trabalho. Sim, é um sonho. Mas ele vale a pena ser vivido.

Se olharmos para trás vamos ver que, a partir da edição da Declaração, muito foi conquistado. Criamos com ela um parâmetro que nos permite medir como está¡ um pais, uma região, uma instituição. E é com base nela, que nos serve de rumo, que podemos lutar pela mudança, criticar a situação existente, mostrar o desrespeito ao que estatui.

A Declaração é uma grande conquista e seus 60 anos, um marco. Graças a ela é que temos a liberdade de falar sobre o assunto, criticar o seu não cumprimento, apontar problemas e ver soluções. Sem ela as coisas certamente seriam muito mais difíceis. E hoje, nesta blogagem, iniciativa do Sam, do Fênix ad Aeternum, temos uma ótima oportunidade de reavivar o sonho, recomeçar um caminho e seguir adiante buscando a concretizarão de uma utopia: a concretizarão da Declaração.

Vamos sonhar – e agir. Sonhando juntos teremos mais condições de realizar o que sonhamos.

ADOÇÃO, UM ASSUNTO EM DISCUSSÃO

Fui privilegiado com filhos, mas tenho amigos e familiares que buscaram tê-los e não o conseguindo, decidiram adotar crianças. E tenho amigos que, com filhos criados, fizeram este mesmo caminho. Tanto em um, quanto no outro caso, isso me provoca uma profunda admiração, sobretudo por estes conhecidos não fazerem o caminho tradicional, de seleção por cor, mas por adotarem a diversidade.

Cito os exemplos porque eles divergem dos números sobre adoção no Brasil. Enquanto um amigo, caucasianos ele e a esposa, adotaram uma criança negra, que faz a alegria da casa e de quem a frequenta, a demanda por adoção no paí­s é por crianças brancas, recém nascidas e meninas. Quem não se enquadra nestes quesitos, já¡ começa com uma grande desvantagem. Os números só ressaltam a coragem do meu amigo.

Embora – como disse – com casos na família e entre amigos, nunca havia me debruçado sobre a questão. Com a blogagem – promovida pelo Dácio e pela Geórgia, e cujos participantes podem ser vistos aqui – procurei ler sobre o assunto e confesso que me surpreendi com os números e com uma outra faceta, que já¡ conhecia, que é a chamada adoção ilegal. Nela, famílias conseguem crianças com terceiros, sem cumprir as formalidades legais, registrando-as como filhos. As informações dizem que este tipo de adoção continua sendo muito comum em todo o paí­s.

Se, de um lado, há¡ muita gente querendo adotar e, do outro, crianças disponíveis para adoção, o perfil de exigência faz com que muitos cresçam sem família – conheço pelo menos um caso e que, hoje, são pessoas bem sucedidas. Aqui, de certa forma, prevalece o preconceito, pois a maioria não quer crianças a partir de uma determinada idade e nem aquelas que não se enquadram no padrão de brancura procurada por uma boa parte da sociedade brasileira.

Pelo que li, há¡ toda uma discussão entre a adoção legal, sancionada pela Justiça, e aquela outra, dita informal por alguns, mas classificada como ilegal por outros. Será¡ que este tipo de adoção deve ser banido? Será¡ que, para a família e para a criança, este é um processo ruim? Será¡ que a lei está¡ correta e a prática, errada? Acho que são questões que tem de ser postas, uma vez que são reais, ocorrem no dia a dia e, na maioria das vezes, com casos que se tornam emblemáticos. Será¡ que é mesmo preciso o aval da justiça para se adotar alguém?

Conheço um caso emblemático. Em uma família com muitos filhos, todos estudantes, eles acabaram arranjando um amigo de escola que tinha perdido os pais em um acidente. Era já adolescente e, como se enturmou com os estudantes, passou a frequentar a casa da família. A proximidade acabou aumentando e ele, na verdade, foi ficando mais e mais tempo, o que o levou, no final, a morar com a família. Passou, então, a fazer parte dela, transformando-se no décimo-terceiro filho do casal, que era e é pobre, mas tinha muito orgulho de poder acolher o menino que era amigo de seus filhos.

Hoje, esta criança é um adulto. Com o apoio da família, estudou e acabou se transformando em um profissional conhecido na sua área. Casou-se, teve filhos e estes são considerados mais alguns dos netos que o casal tem. Agora, como antes, ele não chama de pai ou mãe, mas considera o casal que o acolheu como se o fossem e os seus filhos, como irmãos. Ele ganhou 12 irmãos e estes, ganharam mais um.

O que fico pensando, ao refletir sobre leis e exigências para a adoção, é o que teria acontecido se a família buscasse se enquadrar em todos os aspectos legais. Será¡ que conseguiria adotá-lo? Afinal, já tinha 12 outros filhos para criar. O que este exemplo me diz – e ele é muito próximo a mim, pois os filhos de quem foi adotado são, hoje, meus sobrinhos – é que a adoção, antes de tudo, é um gesto de amor, de solidariedade e não se prende ao processo legal.

Este processo, aliás, pode até ser preenchido, mas antes é preciso olhar a família e, nela, a criança, vendo que pode ganhar um lar, uma família. E isso não se enquadra em dispositivos legais, mas na disposição pessoal de cada um, de dar-se e de receber. Em alguns casos, de se completar, preenchendo o lugar que a biologia não lhe permitiu. Em outros, mostrando a disposição de acolher quem precisa. Assim, temos de aplaudir quem toma tais iniciativas, e não criticar por não haver adoções suficientes para todas as crianças disponíveis.

Temos de ver a adoção, no meu entender, não como um processo legal, mas como algo de fundo afetivo, de alguém que se dispõe a dar-se e a receber outrem que não é biologicamente ligado a ele, transformando-a em um membro de sua família e lhe dando guarida. Será¡ isso garantia de acerto? Ninguém pode dizer, mas se olharmos a questão do lado afetivo, não como um processo, teremos, acredito, mais possibilidade de que dá certo.

E falo isso olhando os exemplos que citei. Todos eles foram vitoriosos. Hoje, alguns dos adotados são adultos, caminhando para constituir suas famílias. Outros, já¡ o fizeram e alguns estão, ainda, na adolescência, mas se sentem pertencendo a algo que lhes deu acolhida e lhes dá¡ suporte para caminhar adiante.

UMA POESIA QUE INSPIRA

Há dois anos, participando de uma outra blogagem coletiva – Cecí­lia de todos os cantos – afirmei: “Toda vez que penso em Cecília Meirelles ouço a voz de Fagner cantando Canteiros. E acho que isso ocorre por descobrir, com surpresa, que a letra era um poema dela”. Pois bem, eu estava certo. E também estava errado.

Continuo vendo Canteiros como algo produzido pela poetisa, mas a letra, em sua maior parte, é mesmo do Fagner, que a canta. O poema de Cecília, de onde um pedaço da música foi tirada, chama-se Marcha, e é um pouco diferente do que Fagner canta. Ao mesmo tempo em que corrijo uma informação anterior, reconheço que foi a partir da música que me despertei para a poesia de Cecília Meirelles.

Falar sobre Cecília e o que ela escreveu, sobretudo na área de poesia, é repetir o que muitos outros já disseram, reconhecer a beleza dos seus poemas, a simplicidade com que escreveu e o sentimento colocado naquilo que produziu. Então, o melhor, é mesmo mostrar o que ela fez. E no poema que acabou inspirando Canteiros. Veja:

Marcha

Cecília Meirelles

As ordens da madrugada
romperam por sobre os montes:
nosso caminho se alarga
sem campos verdes nem fontes.
Apenas o sol redondo
e alguma esmola de vento
quebram as formas do sono
com a ideia do movimento.

Vamos a passo e de longe;
entre nós dois anda o mundo,
com alguns mortos pelo fundo.
As aves trazem mentiras
de paí­ses sem sofrimento.
Por mais que alargue as pupilas,
mais minha dúvida aumento.

Também não pretendo nada
senão ir andando à toa,
como um número que se arma
e em seguida se esboroa,
– e cair no mesmo poço
de inércia e de esquecimento,
onde o fim do tempo soma
pedras, águas, pensamento.

Gosto da minha palavra
pelo sabor que lhe deste:
mesmo quando é linda, amarga
como qualquer fruto agreste.
Mesmo assim amarga, é tudo
que tenho, entre o sol e o vento:
meu vestido, minha música,
meu sonho e meu alimento.

Quando penso no teu rosto,
fecho os olhos de saudade;
tenho visto muita coisa,
menos a felicidade.
Soltam-se os meus dedos ristes,
dos sonhos claros que invento.
Nem aquilo que imagino
já me dá contentamento.

Como tudo sempre acaba,
oxalá seja bem cedo!
A esperança que falava
tem lábios brancos de medo.
O horizonte corta a vida
isento de tudo, isento…
Não há lágrima nem grito:
apenas consentimento.

Como podem ver, da penúltima estrofe saiu uma das estrofes da letra do Fagner, que fez nela pequenas modificações e deu, no final, um sentido bem diferente à música do que a poesia original. Este poema – e este artigo – fazem parte da blogagem coletiva sobre Cecília Meirelles, promovida pelo blog Na dança das palavras. Nele, você encontra os outros participantes e poderá ler mais, bem mais, sobre Cecília Meirelles e tomar contato com a sua poesia.

Se você acessar o artigo de dois anos – o link está logo no iní­cio – vai encontrar lá links que levam à biografia de Cecília Meirelles e à sua poesia. Espero que eles sejam úteis.

O QUE OCUPAVA MINHA IMAGINAÇÃO

O Brasil e os brasileiros perderam a identidade e hoje cuidam de festejar o hallowen, uma manifestação que nada tem a ver com nossas tradições. Enquanto isso, personagens como Saci Pererê e Curupira, típicos brasileiros, estão sumidos, perdidos. Já não estimulam a imaginação de ninguém, como fizeram na minha infância. Não será a hora de esquecermos a cultura globalizada e olhar para o local? Não será a hora de retomar os nossos mitos, ritos e personagens folclóricos, fazendo com que voltem a viver e ganhem a imaginação de todos? Esta blogagem coletiva é uma boa oportunidade para levantar a questão. Então, ela está posta. Quem pode responder?

breport

SE FOR IMPORTANTE, VOU SABER

breportOs jornais – e as mídias tradicionais – tem de se reinventar, já que informam o que todo mundo sabe. A afirmação foi feita pelo jornalista e blogueiro Ricardo Noblat – blog do Noblat – em uma palestra feita para jornalistas vinculados à Rede de Comunicação do Governo do Espírito Santo. Nela, destacou que a velocidade da informação é muito maior e que principalmente os jovens consomem informação através da Internet e mediante os grupos de relacionamento, incluindo os blogs.

Citando um relatório da Pew Research, uma instituição dos Estados Unidos que dentre os vários projetos que toca tem um voltado para a excelência do jornalismo, mostrou que os jovens tem uma visão totalmente diferenciada de como obter informação. Neste caso, usou – em uma tradução livre – o que um entrevistado disse sobre como se informa: Se for importante, vou saber!.

As informações chegam via redes sociais, via e-mail e mediante o relacionamento estabelecido na própria internet. Por isso, Noblat considera que é imprescindível que o jornalista mude sua visão. E neste caminho pode assumir a postura de um blogueiro, o que implica uma mudança de visão e da forma como a informação é tratada e distribuída. A mídia social – no que Noblat inclui os blogs – está ganhando corpo e é através dela que sobretudo os mais jovens interagem.

noblat

Esta mudança, segundo afirmou, explica a queda na tiragem dos jornais, na menor audiência da televisão, na perda de ouvintes do rádio e na própria queda do volume de publicidade nestes meios tradicionais. Enquanto isso, a publicidade vai migrando, aos poucos, para os meios digitais. E é ela que tem de pagar os custos da veiculação de informações, uma vez que, de acordo com o jornalista e blogueiro, os usuários não estão dispostos a isso. Citou como exemplo o caso do NY Times. Ao fechar seu conteúdo, a audiência despencou, o que o levou a abri-lo novamente, permitindo o acesso de todos.

Um outro ponto interessante que Noblat abordou é o da credibilidade, criticada quando se trata de blogs. Para ele, credibilidade vem com o trabalho feito, com a informação correta, com a admissão de erros, com aceitar a crítica, mesmo que radical. E ela pode tanto ser conquistada por um jornalista, quando por um blogueiro que não o é. No caso dos blogs, ele destacou a segmentação da informação, nichos especializados, mas vê a blogosfera como um excelente instrumento da comunicação dos poderes públicos.

Mas será que a internet influi? Ao responder a questão, Noblat observou que um levantamento feito nos Estados Unidos mostrou a importância crescente da internet para as campanhas políticas. Três por cento foram influenciados por ela nas eleições de 1996, com o número subindo para 11% quatro anos depois e chegando aos 20% em 2004. Ele crê que, nestas eleições, o papel da internet será ainda maior. E citou o caso do discurso de Barak Obama, sobre a questão racial, que cinco minutos depois de feito estava no You Tube, com alguns milhões de acesso poucos minutos depois.

No caso do Brasil, não existem estes números, mas hoje temos mais de 23 milhões de internautas que acessam os sítios da web de casa e, no total, este número – acessos de casa e de outros lugares – chega aos 40 milhões, um quarto da população brasileira. É este público que consome informações, sejam elas dadas por jornalistas ou não. E é este público que, de um modo geral, sabe que se a informação for importante, não vai precisar procurar por ela.

Esta informação vai chegar até ele. E não em segunda mão, através de um dos veículos da mídia tradicional. Por tudo isso é que Ricardo Noblat, embora não o tenha dito expressamente, admite que se um jornalista pode ser blogueiro – como é o seu caso – nada impede que um blogueiro seja repórter. Aliás, dentro a proposta do Blogueiro Repórter. E você pode participar, votando nas matérias, escolhendo as que lhe agradam. É só ir ao Dihitt, escolher e votar.

blabla1

O QUE DIZEMOS E NÃO PERCEBEMOS

blabla1De uma ou de outra forma, todos nós temos vícios de linguagem. E isso quer dizer que, sem sentir ou de propósito dizemos coisas que, ou acompanham uma tendência ou são típicas do nosso falar. Eu, por exemplo, tenho a mania de, no meio de uma frase, fazer uma pergunta e emendar, imediatamente, a resposta. Talvez pudéssemos chamar isso – o que não é – de uma pergunta retórica, significando que não busco resposta para ela.

É dessa forma que incorporamos os regionalismos na nossa fala, distinguindo-nos de outras regiões, que não adotam o mesmo padrão. Como a língua é rica, a mesma coisa é chamada de modo diferente. Macaxeira é também aipim. Mas de regionalismo, todos nós sabemos.

O que me intriga e chama a atenção são os maneirismos individuais, como a minha pergunta. Se você observar vai notar que quase todas as pessoas têm alguma forma peculiar de acentuar um momento da fala. Nestes dias, encontrei alguém que, a cada frase, fala um “por exemplo, entende?”. E um outro que terminava praticamente todas as frases com um “não é?”. Ou um terceiro, que sempre diz, ao longo da frase formulada um “quer dizer”.

A língua – e a linguagem – tem um objetivo primário, que é permitir a comunicação, fazendo com que emissor e ouvinte se entendam. Dizem os teóricos que a comunicação se dá na recepção, pois é a partir do entendimento do que foi dito que ela se estabelece. Os vícios de linguagem, os cacoetes que integram a nossa fala, quando se assemelham ao que a maioria usa, ajuda na integração e, portanto, no entendimento.

De outro lado, se não conhecemos o que se disse, há um ruído e a comunicação fica ruim. É o caso de expresseis regionais que fora do círculo em que é falada não têm sentido ou têm sentido diferente. É por isso que, em todas as circunstâncias, procuramos ficar mais próximos do nosso grupo. Se estamos com nerds, vamos falar nerdês. E se falamos de futebol, enveredamos pelo futebolês. Assim, entendemos e somos entendidos.

Hoje, centenas de blogs da chamada blogosfera brasileira estão enveredando, a partir de uma proposta feita pelo Edney, do Interney, por uma blogagem coletiva que pretende gerar conteúdo inédito. É o caso deste post. É a primeira vez que o publico, logo, é inédito. Isso, no entanto, não quer dizer que muitos já tenham falado sobre o mesmo assunto. Discutir a língua e como ela se expressão, diria, é até recorrente.

Já disse alguém – e definitivamente, não é verdade – que nada existe de novo sobre a face da terra. Eu acho que existe. E a blogagem de hoje vai mostrar isso, da mesma forma que é sempre novo você ouvir uma expressão usada de forma diferente, um cacoete ou um vício de linguagem incorporada à fala de alguém.

Novo não é o assunto – e ele pode ser, também. Novo e inédito é a forma como o abordamos. Mas a propósito do assunto aqui abordado, quero perguntar: que tipo de cacoete você tem no linguajar? E qual é o regionalismo que mais usa? Deixe um comentário e, assim, enriqueça esta discussão.