UMA AGRESSÃO AOS SENTIDOS

“A Terra é azul”, decretou Yuri Gagárin, o primeiro homem a ficar sobre o planeta, circundando-o dentro de uma desconfortável e apertada cápsula. Com ele, iniciamos a corrida espacial, estimulada pela Guerra Fria. Mas isto é história e não é o objetivo deste artigo. A citação foi usada apenas para lembrar que vivemos em um mundo de cores. Se de fora da atmosfera, bem lá do alto, ele é azul, aqui em baixo, ganha muito mais cores. E para constatar basta olhar do lado, para a natureza e as flores, folhas e frutos que os apresenta.

Cores, então, são coisas naturais e hoje, inclusive, exploradas cientificamente para dar um clima ao ambiente, por exemplo, suavizando-o ou tornando-o, digamos assim, mais vibrante. O fato é que, do natural passamos ao artificial, com as cores sendo espalhadas e usadas a tal ponto que, no meu caso, configura um assalto aos sentidos, uma agressão mesmo. E esta agressão pode ser feita em vários níveis.

O primeiro deles são as próprias cidades, infestadas de propaganda, com imensas placas que se destacam e, às vezes, ofuscam a paisagem. Elas são feitas para chamar a atenção, e chamam. Seja através de sua colocação estratégica, do seu tamanho, do que veicula ou, até, por simplesmente ficar vazia. E o que dizer dos outdoors, uma praga que infesta praticamente todas as esquinas de maior movimento nas cidades? Poluição visual das piores é o que são.

A coisa chega ao seu extremo, no entanto, nos shoppings centers, principalmente quando se aproxima o final do ano, com as comemorações do Natal e Ano Novo. Observe bem o shopping que você mais frequenta e verá que ele se tinge praticamente de vermelho, mas com a cor vem misturadas outras, em enfeites nos corredores, nas vitrines das lojas, por onde quer que você anda. E isso fica mais destacado pela concentração que encontramos, pelo ambiente fechado.

E não são só as cores, não. Passe por uma praça de alimentação e preste atenção ao seu nariz e sentirá o cheiro permanente de gordura e de outros ingredientes usados na preparação das comidas ali servidas. Ande pelos corredores e estará acompanhado do cheio de produtos químicos usados na limpeza. Vá a um banheiro e, nele, além dos cheiros característicos do local, novamente vai encontrar os cheiros de químicos usados para atenuar os primeiros cheiros. Entre em uma loja, e terá um cheiro especifico.

O que temos, no final, é uma completa saturação dos sentidos, indo da visão ao olfato e, deste para o ouvir. Sim, pois milhares de pessoas, por menos que façam barulho, geram um ruído considerável. E nós o ouvimos, embora muitas vezes não o percebamos. No meu caso, não consigo ouvir a campainha do meu telefone celular em uma praça de alimentação cheia. O ruído de fundo se sobrepõe a ele, que é baixo por escolha, pois detesto sons muito altos. O jeito de tê-lo à mão e poder atender é colocá-lo no modo de vibração. Com som, não dá.

Agora que falei nisso, você deve perceber melhor. Mas a verdade é que vamos nos acostumando aos ruídos, às cores, aos cheiros e, no final, quase não o percebemos, pois eles passam a fazer parte da nossa memória visual, olfativa e auditiva. Somos capazes de nos acostumar com quase todas as coisas e, neste caso dos sentidos não é diferente. Vivemos, nos shoppings e fora dele, tempos de agressão aos sentidos, mas cores, sons e cheiros já não nos incomodam mais.

Ou, então, como no meu caso, começam a incomodar. E tanto é assim que isso me chamou a atenção e virou tema no blog.

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