COMO FOI QUE SOBREVIVEMOS?

Hoje as crianças são cercadas dos maiores cuidados. O “não pode” é predominante, com os pais tomando todos os cuidados para que os filhos não tenham nenhum problema, seja em relação á s suas prórias e infantis atividades, seja na escola, nas brincadeiras. Enfim, são monitorados constantemente, acolchoados, protegidos e supercuidados. Nem por isso escapam de problemas, como ir mau na escola, acabar machucando-se em uma brincadeira ou comer algo que, no final, não lhe fará¡ ou fez bem.

O curioso disso tudo é que, se olharmos em perspectivas, veremos que há¡ alguns anos era muito diferente. A geração atual que já se encontra na chamada meia idade teve uma infância muito, muito diferente. E é sobre isso, ao estilo Antigas Ternuras, que falaremos, aproveitando email que destaca o que fazíamos e lembrando que as consequências não eram assim tão funestas, tanto que sobrevivemos, chegamos à média idade e agora, muitas vezes, recordamos as chamadas travessuras que fazíamos. Éramos ingênuos, sem dúvida, mas nos divertíamos.

Alguma dúvida? Então, anote aí, começando pelos veículos. Eles não tinham cinto de segurança, travas nas portas, apoio de cabeça ou airbag. E nós andávamos amontoados no banco de trás, sem que nossos pais se preocupassem com a farra que fazíamos, colocando a cabeça pela janela ou, simplesmente, nos enroscando nas brincadeiras. Alguém se machucou? Pelo que sei, tomando como base o meu caso e de inúmeros outros amigos, não. E que tal em relação aos brinquedos, que eram, muitas vezes, formados por peças pequenas, que podiam ser engulidas (?) por alguém? Além do que eram pintados com tinta que não tinham nenhum controle químico. O que aconteceu? Nada.

Na minha casa, e na dos meus primos e amigos, os armários não tinham chave, com os medicamentos – que eram muito menos do que hoje – ficando expostos, o mesmo acontecendo com outros produtos químicos que, porventura, fossem usados pela família. Veneno? Sim. E hoje seria impensável tê-los, com o BHC, usado na agricultura e que era comum, sobretudo em áreas rurais. O perigo passou, sobrevivemos para contar esta histá³ria. E o que dizer em relação á  água. No máximo, ela era filtrada em filtros de barros, mas nós a tomávamos na torneira, na mangueira, nas bicas e nas fontes. Eu fiz isso e, mais uma vez, nada aconteceu.

E você já¡ imaginou uma criança correndo em carrinhos de rolimã feitos de forma artesanal, sem freios? Pois é, fazíamos isso, tudo por tentativa e erro, com várias quedas, mas a á³tima sensação de ter descido uma ladeira a toda velocidade, freando com a sola dos sapatos – quando os usávamos – ou então somente com os pés. E o que falar de andar de bicicleta sem nenhuma proteção, passando pelas ruas ao lado dos carros, sem se importar? Ou brincar na rua, colocando pedras como traves para jogar futebol, normalmente disputado com uma pequena bola de borracha e, em alguns casos, com bolas de meia? Sim, saíamos arranhados, mas alguém reclamava?

Na alimentação, não éramos nada saudáveis. Comíamos doces á  vontade, coisas com muito açúcar, além de outros tipos de alimentos que, hoje, são meio que inconcebíveis. A banha de porco era uma constante na cozinha e a gordura fazia parte da alimentação. Tudo o que comamos gastávamos nas brincadeiras, muitas vezes saindo pela manhã e só retornado, completamente exaustos, além de totalmente sujos, no final da tarde. Era tempo de um banho, do jantar e da cama, para tudo começar no dia seguinte, quando não estávamos na escola, que só ocupava um período e quem não conseguia aprender, ficava reprovado, repetindo o ano, não apenas uma matéria.

Todos estes comportamentos eram comuns. Eu tinha vários primos e amigos. Íamos juntos á  escola e juntos nos divertíamos. Às vezes, andávamos longas distâncias para encontrar outros amigos e, algumas vezes, fazíamos isso a pé; algumas, a cavalo; outras, de bicicleta. E fazíamos isso com o conhecimento de nossos pais, que sabiam que tínhamos ido, mas não onde estávamos, o que fazíamos. Não tínhamos controles, pois não havia celular e os telefones fixos ainda eram poucos. E tudo isso é apenas um pouco do que toda criança fazia. Há¡ muito mais: banhos em rio, quedas de cavalos, brigas na escola, etc.

Ao ver o email, na verdade uma apresentação em Power Point, um amigo – não de infância, mas de longa data – que o acompanhava junto comigo, parou e perguntou: Como foi que sobrevivemos? A pergunta, no meu entender, até cabe, se compararmos as condições de nossa infância com o que acontece hoje. O fato é que não tenho a resposta, mas posso garantir que, na infância e na juventude, fazendo tudo isso e um pouco mais, me diverti, e muito. Também aprendi a me virar sozinho, tomar iniciativas, acertar as coisas. Tudo, no final, serviu como educação. Olhando o que fiz, acho que lucrei. E fico imaginando o que as crianças de hoje estão perdendo.

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Sobre o Autor

Jornalista, blogueiro e curioso, sempre disposto a aprender.

Conversas (2)

  1. Grace OLsson :

    Lino, o mundo mudou . E, nao creio que estejamos andando em direcao a um mundo melhor. esse, o Mundo, está cada dia mais catastrófico.
    Meu sonho, Lino, é voltar a ser quem eu era. Viver num vilarejo. Eu creio ser possível.
    Eu fui ao Brasil e outros paises da América do Sul e vi quanto as coisas mudaram. mas, senti, o quanto as pessoas que moram e vivem de forma simples, sao felizes.
    Meu querido Lino, eu tenho plena conviccao de que, está em lugares que todo mundo gostaria de está não é sinal de felicidade.
    Eu conversava, mês passado, com um morador de Conceicaod e Jacareí, no RJ, para onde eu fui e levei um monte de suecos para fotografaremo Rio que eles nao conheciam e vi a felicidade no rosto do senhor de cabelos grisalhos.

    Pode ser que eu esteja errada, em querer viver de forma simples, mas, a minha felicidade e sanidade mental estao,a irreversivelmente, relacionadas com coisas desse tipo.
    dias felizes

  2. Luciana Farias :

    Perdem muito, eu garanto!!! Nas mínimas coisas: demorei pra consentir que as meninas saíssem sozinhas de casa. Só começaram depois que tive certeza de que elas estavam atentas a todos os perigos… :-(((

    Lino, faz alguns dias que estou tentando comentar no post anterior, mas só dá “página não encontrada”: fico imaginando o que seria uma “Igreja Automotiva”. Esse assunto surgiu em conversas diversas vezes. Inclusive, em reuniões familiares, falávamos em montar a nossa própria, já que o meu irmão na época tinha o visual adequado: era barbudo e cabeludo. Infelizmente a ideia não vingou, e hoje não daria certo, já que a barba do meu irmão continua lá, mas os cabelos… ah, tadinhos, esses caíram quase que todos, hahaha…

    Beijão!!!

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