APOSENTADORIA, O FIM DO SONHO

Sou de uma geração que conviveu, no que se refere à aposentadoria, com dois comportamentos diferentes. Enquanto no meio rural, onde nasci e cresci, pouco ouvi as pessoas falarem em aposentadoria. O único exemplo de aposentado era meu avô – também meu padrinho – que criou duas famílias – a dele e a de um filho – e parou de trabalhar, mas manteve-se ativo até sua morte, ocorrida enquanto dormia, tendo chegado aos 94 anos. Depois, na cidade, as coisas mudaram e vi muitas pessoas jovens com o sonho de aposentarem-se e “ficar sem fazer nada”.

Talvez por causa do tipo de criação que tive nunca coloquei a aposentadoria como um objetivo. O que me ocorreu, no entanto, foi ver a mudança de perspectiva das pessoas em relação ao trabalho. Muitos ainda o vem como castigo, mas uma parcela cada vez maior entende que faz parte da vida e trabalham com gosto, principalmente quem está em uma atividade que gosta. Estes, principalmente, a querem prolongar o maior tempo possível.

No meio do caminho – ou talvez seja melhor chamar de transição – houve uma mudança significativa, que foi o aumento da expectativa de vida. Esta mudança colocou a aposentadoria sob outra perspectiva. Quem começou a trabalhar aos 20 anos, por exemplo, trabalharia 35 anos e aos 55 anos poderia se aposentar, parando de trabalhar. Como a vida média está acima dos 72 anos, viveria, em tese, 17 anos na ociosidade.

As regras mudaram, mas o raciocínio ainda é válido. Aposentando-se aos 60 anos e dependendo da região em que vive, um homem tem uma expectativa de mais 20 anos de vida. E não se falando que aos 60 anos uma pessoa que for saudável continua apta ao trabalho, mantendo suas forças físicas e intelectuais. Ficar parado neste caso não parece ser uma boa opção. E a perspectiva de maior tempo de vida deu o primeiro empurrão para acabar com o sonho da aposentadoria, significando o término do trabalho.

Hoje, o que mais influi é o lado financeiro. A previdência oficial, que continua assistindo milhões de pessoas, está cada vez oferecendo menos, fazendo com que os rendimentos da aposentadoria sejam bem menores do que aqueles obtidos por quem continua ativo. Combinando os ganhos menores com a maior expectativa de vida o que vemos é que, a cada dia, um número maior de “aposentados” continua trabalhando, a maior parte deles por necessidade, pois tem de complementar a parca renda de suas aposentadorias.

Vida melhor, mais saudável e com mais tempo para ser vivida e a diminuição dos rendimentos de aposentadoria estão provocando uma visível mudança no Brasil, um país de jovens. Basta ver as estatísticas para constatar que o número de pessoas com mais idade trabalhando tem aumentado, o que faz com que muitos adiem a ideia de pararem, trocando um rendimento melhor por um pior.

A mudança, como já observava um filósofo grego, é a única coisa permanente que temos e ela alcançou o sonho da aposentadoria, acabando com a ideia de que em certo momento da vida, depois de um longo período de trabalho, seria o momento do ócio. Hoje, ao contrário do que muitos sonharam, a realidade impulsiona o trabalho, colocando o ócio mesmo com um sonho, mas muito, muito distante da realidade.

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Sobre o Autor

Jornalista, blogueiro e curioso, sempre disposto a aprender.

Conversas (5)

  1. Fernando :

    Este assunto é da maior atualidade. Ne verdade as estatísticas demogróficas vieram por em perigo a #sustentabilidade” do sistema de previdência social pelo que mesmo aumentando a idade de aposentadoria (“reforma” na linguagem mais vulgar dos portugueses) as contrapartidas financeiras são cada vez menores e “colocando o ócio mesmo com um sonho, mas muito, muito distante da realidade”. Ocorre que mesmo aqueles que tem vivacidade, capacidade física e intelectual para continuar activos no mundo do trabalho vem cercear-lhes as portas com as incríveis taxas de desemprego que grassam na Europa. Já quanto a tal sustentabilidade financeira do sistema porque é que teimam os Estados em fazer incidir as contribuições apenas sobre o factor trabalho? Uma via é fazer incidir uma contribuição sobre as remunerações de outros factores de produção (uma taxa – ainda que ligeira – sobre operações de bolsa, por exemplo). Parabéns pela manutenção da alta qualidade do blog. Uma boa semana.

  2. Fernando :

    Para correção do endereço do email

  3. denise rangel :

    Oi, Lino
    Pois é, aposentadoria também era um sonho, principalmente porque eu queria curtir minha Princesinha. Porém, os parcos rendimentos da aposentadoria aliados à idade em que estou, em plena condição física e intelectual, continuei trabalhando. Talvez só pare quando meus olhos fecharem. Bom, por um lado, para manter a mente ativa, e ruim por outro, pois não é uma opção.
    abraço, garoto

  4. Dea Machado :

    Sabe que nunca pensei nisso? Não consigo conceber a ideia de parar de trabalhar. Amo tanto o que faço que simplesmente aposentar não é uma possibilidade…

  5. manoel afonso :

    Grande Lino….Impecãvel o texto retratando a situação de milhares de pessoas. Embora a vida tenha nos conduzido para a ‘zona urbana’, lá atrás – vivendo na zona rural – também não tinhamos essa preocupação. Mas a pergunta cruel: como manter o mesmo padrão com a chegada da aposentadoria? Sem contar os ‘acidentes de percurso’ que podem antecipar essa fase. Trabalhar faz bem, mas o trabalho deve estar à disposição do homem, que deve usá-lo à medida de suas conveniências ou necessidades. Quando vejos os norte-americanos aposentados – vivendo bem, morando em alguns países como Costa Rica, sinto uma pontinha de inveja. Mas existe o outro lado da automática exclusão social. No arremate uma pergunta: quantos amigos aposentados temos? Abraço. Manoel

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